terça-feira, 28 de dezembro de 2010

http://www.youtube.com/watch?v=S6s8QjLwQM0

Traduzir-se


Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte?

Ferreira Gullar
De Na Vertigem do Dia (1975-1980)

2 comentários:

Maiara disse...

Gosto tanto desse poema, estava lendo essa semana... Por isso fiquei feliz ao vê-lo aqui.

Catarina disse...

lindo o poema...
deu que pensar...

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