terça-feira, 27 de abril de 2010

O açucar

O branco açúcar que adoçará meu café
Nesta manhã de Ipanema
Não foi produzido por mim
Nem surgiu dentro do açucareiro por milagre.

Vejo-o puro
E afável ao paladar
Como beijo de moça, água
Na pele, flor
Que se dissolve na boca. Mas este açúcar
Não foi feito por mim.

Este açúcar veio
Da mercearia da esquina e
Tampouco o fez o Oliveira,
Dono da mercearia.
Este açúcar veio
De uma usina de açúcar em Pernambuco
Ou no Estado do Rio
E tampouco o fez o dono da usina.

Este açúcar era cana
E veio dos canaviais extensos
Que não nascem por acaso
No regaço do vale.

Em lugares distantes,
Onde não há hospital,
Nem escola, homens que não sabem ler e morrem de fome
Aos 27 anos
Plantaram e colheram a cana
Que viraria açúcar.
Em usinas escuras, homens de vida amarga
E dura
Produziram este açúcar
Branco e puro
Com que adoço meu café esta manhã
Em Ipanema.


Ferreira Gullar

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Nascimento de uma estrela...

Venho aqui por meio desta, relatar fato ocorrido neste final de semana, o momento exato do acontecimento, não posso afirmar com grande precisão, mas posso desde já dizer, que todos podem ter visto, porém nem todos notado.
A noite cobria o céu. Eu olhava para ela e via milhares de estrelinhas. Lindas e pequeninas, brilhando com aquelas luz trêmula que lhes é peculiar, parecia que a paz e a harmonia se mantinham no espaço.
Quando, de repente, não mais do que de repente, o céu parecia se mover. De início fui tomado pelo medo, um medo repentino como o movimento do céu, que me fazia sentir uma onda fria subir por cada vertebra de minha espinha dorsal, como se cada estrela que no céu se movimentava criava uma movimentação biológica onde minhas células, minhas pequenas partes do meu "eu" se movimentavam em resposta.
Nessa imensa turbulência sensorial, onde meu corpo e o corpo da noite se movimentavam, feito o corpo das grandes cidades que não conhecem a pausa, pareciamos tomados pelo caos das metropoles.
Mas de súbito, como uma organizadora do caos, começa a brilhar uma pequena estrela, ela não existia naquele céu antes dos movimentos começarem, bem pequenia (não utilizo intrumentos de medidas espaciais, mas posso afirmar sua pequenês) começava a se tornar ainda menor aos meus olhos, não por diminuir, mas pelo fato das outras estrelas começarem a crescer.
E observei os milhares de estrelas que enxergava no céu continuarem sua movimentação em torno dessa estrelinha, ao mesmo tempo que iam ampliando seus tamanhos, ia girando ao redor da estrelinha.
O céu parecia um grande cinema, porém com atores feitos de bolinhas luminosas.
Sozinho e estático, observava que a estrelinha era a grande regente desses acontecimentos, e que essa estrelinha estava levando mais luz as demais.
Após um curto período de tempo, as estrelas que a cercavam passam a crescer tanto, ao ponto de se tornarem grandes Sóis e o que havia iniciado como noite se transformou em dia, um dia iluminado por vários sóis, cada sol com um tamanho diferente, uma expressão diferente, porém repleto de luz.
A estrelinha ficava ali, parada, era o único corpo no espaço que não se movimentava. Guiava todo aquele espetáculo celestial.
Após o nascimento de cada sol, ele ia em direção a estrela como quem agradecesse e contemplasse a beleza da estrelinha.
O dia, desde então, parece ter se tornado perpétuo e provavelmente será. Em algumas ocasiões um ou outro sol se apagará, porém é só voltar a estrelinha e se enxer de luz novamente.
Assim pude perceber que o nascimento de uma estrelinha, provocou o nascimento de muitos sóis e a eternidade do dia.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Kropotkin


"...Pois, no dia em que as antigas instituições forem despedaçadas sob o machado do proletariado, vozes serão ouvidas gritando: Pão para todos! Casa para todos! Direito para todos à uma vida confortável! E essas vozes serão ouvidas. O povo dirá para si mesmo: Vamos começar satisfazendo nossa sede pela vida, a alegria da liberdade que jamais havíamos conhecido. E então após todos experimentarem a felicidade, começaremos a trabalhar; o trabalho de demolição dos últimos vestígios do domínio da classe-média, com sua moralidade calculada, sua filosofia do débito e do crédito, suas instituições de minas e brilhantes...".
—Pyotr Kropotkin, A Conquista do Pão