sábado, 28 de março de 2009

Mikhail Alexandrovich Bakunin


Não sou nem sábio, nem filósofo, nem escritor profissional. Escrevi muito pouco na vida e sempre que o fiz foi a contragosto, somente quando uma apaixonante convicção forçava-me a vencer minha repugnância instintiva contra qualquer exibição pública de meu próprio eu.
Quem sou eu, pois, e o que me leva agora a publicar este trabalho? Sou um pesquisador apaixonado pela verdade e um encarniçado inimigo das ficções malfazejas das quais o partido do sistema, este representante oficial, privilegiado e interessado em todas as baixezas religiosas, metafísicas, políticas, jurídicas, econômicas e sociais, presentes e passadas, pretende utilizar-se ainda hoje para embrutecer e submeter o mundo.
Sou um amante fanático da liberdade, considerando-a como o único espaço onde podem crescer e desenvolver-se a inteligência, a dignidade e a felicidade dos homens; não esta liberdade formal, outorgada e regulamentada pelo Estado, mentira eterna que, em realidade, representa apenas o privilégio de alguns, apoiada na escravidão de todos; não esta liberdade individualista, egoísta, mesquinha e fictícia, enaltecida pela escola de J. J. Rousseau e por todas as outras escolas do liberalismo burguês, que considera o assim chamado direito de todo mundo, representado pelo Estado, como o limite do direito de cada um, o que conduz, sempre e necessariamente, o direito de cada um a zero.
Não, só aceito uma única liberdade que possa ser realmente digna deste nome, a liberdade que consiste no pleno desenvolvimento de todas as potencialidades materiais, intelectuais e morais que se encontrem em estado latente em cada um; a liberdade que não reconheça outras restrições que aquelas que nos são traçadas pelas leis de nossa própria natureza; de maneira que não há, propriamente, restrições, pois estas leis não nos são impostas por nenhum legislador de fora, situando-se ao lado ou acima de nós; elas nos são imanentes, inerentes e constituem a base de nosso ser, tanto material quanto intelectual e moral. Em vez de achar nelas um limite, devemos considerá-las como as condições reais e como a razão efetiva da nossa liberdade.
Entendo esta liberdade de cada um que, longe de parar como diante de um marco, diante da liberdade de outrem, encontra aí sua confirmação e sua extensão ao infinito; a liberdade ilimitada de cada um pela liberdade de todos, a liberdade pela solidariedade, a liberdade na igualdade; a liberdade triunfante da força bruta e do princípio de autoridade que nunca foi nada mais do que a expressão ideal desta força; a liberdade que, depois de ter derrubado todos os ídolos celestes e terrestres, fundará e organizará um mundo novo, o da humanidade solidária, sobre as ruínas de todas as Igrejas e de todos os Estados.
Sou um partidário convicto da igualdade econômica e social porque sei que, fora desta igualdade, a liberdade, a justiça, a dignidade humana, a moralidade e o bem-estar dos indivíduos, assim como a prosperidade das nações, serão nada mais do que mentiras. Mas, partidário da liberdade, condição primeira da humanidade, penso que a igualdade deve estabelecer-se no mundo pela organização espontânea do trabalho e da propriedade coletiva das associações produtoras, livremente organizadas e federalizadas nas comunas, e pela federação igualmente espontânea das comunas, e não pela ação suprema e tutelar do Estado.
É este o principal ponto que divide os socialistas ou coletivistas revolucionários dos comunistas autoritários partidários da iniciativa absoluta do Estado. Seu objetivo é o mesmo; um e outro partido querem igualmente a criação de uma nova ordem social fundada unicamente sobre a organização do trabalho coletivo, inevitavelmente imposto a cada um e a todos pela própria força das coisas, com iguais condições econômicas para todos, e sobre a apropriação coletiva dos instrumentos de trabalho.
Os comunistas, contudo, imaginam que poderão chegar a isto pelo desenvolvimento e pela organização da potência política das classes operárias e principalmente do proletariado das cidades, com a ajuda do radicalismo burguês, enquanto os socialistas revolucionários, inimigos de ligações e alianças equívocas, consideram, ao contrário, que só podem atingir este objetivo pelo desenvolvimento e pela organização da força política, mas social e, conseqüentemente, antipolítica das massas operárias tanto nas cidades quanto no campo, incluindo todos os homens de boa vontade das classes superiores que, rompendo com todo seu passado, gostariam de unir-se a eles e aceitar integralmente seu programa.
Há, portanto, dois métodos diferentes. Os comunistas acreditam que devem organizar as forças operárias para dominar a potência política dos Estados. Os socialistas revolucionários se organizam com vistas à destruição, ou se quisermos usar um eufemismo, com vistas ao aniquilamento dos Estados. Os comunistas são partidários do príncipe e da prática da autoridade, os socialistas revolucionários só têm confiança na liberdade. Uns e outros igualmente partidários da ciência que deve matar a superstição e substituir a fé; os primeiros queriam impô-la, os outros se esforçarão por propagá-la para que os grupos humanos, convencidos, se organizem e se federalizem espontaneamente, livremente, de baixo para cima, através de seu próprio movimento e de seus reais interesses, nunca seguindo um plano traçado antecipadamente e imposto às massas ignorantes por algumas inteligências superiores.
Os socialistas revolucionários acreditam que há muito mais razão prática e espírito nas aspirações instintivas e nas necessidades reais das massas populares do que na inteligência profunda de todos estes doutores e tutores da humanidade que, após tantas tentativas frustradas de tornar a humanidade feliz, ainda querem ajudar. Os socialistas revolucionários pensam, ao contrário, que a humanidade deixou-se, por um tempo demasiado longo, governar, e que a fonte destas infelicidades não se encontra em uma ou outra forma de governo, mas no princípio e no próprio governo qualquer que ele seja.
Esta é enfim a contradição, já histórica, que existe entre o comunismo cientificamente desenvolvido pela escola alemã e aceito em parte pelos socialistas americanos e ingleses, de um lado, e o proudhonismo largamente desenvolvido e levado até suas últimas conseqüências, de outro, aceito pelo proletariado dos países latinos[i].

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