quinta-feira, 26 de junho de 2008

Estamos em GREVE. E agora?

- Professor, sexta-feira eu passei pela Praça da República e vi como estava cheia. Você também estava lá?
- Estava.

- E o que vocês decidiram?
- Decidimos que estamos em GREVE.

- Nossa! Mas por que uma decisão tão radical?
- Vamos começar pelo começo. Não sei se você já reparou, mas a escola pública não anda muito bem das pernas. O governo e os jornais dizem a torto e a direito que a culpa é dos professores. Incompetentes, faltosos, atrasados... estes entre outros adjetivos são usados para qualificar os professores e, por extensão, para culpá-los pelo péssimo desempenho dos alunos. Mas será que é tudo culpa dos professores?

- Se os alunos não aprendem direito deve ser por que os professores não ensinam direito, né?
- É exatamente nisso que querem que vocês acreditem. Mas pense bem: por que será que os professores não estão conseguindo ensinar direito? Você acha que é a mesma coisa dar aulas pra 35 e pra 50 alunos?

- Obviamente não.
- Pois os professores geralmente têm que lidar com salas super-lotadas, em que faltam até carteiras pra alguns alunos. Agora pense em mais outra coisa. Será a mesma coisa dar 20 aulas ou 30 numa semana? Ou 50?

- Novamente: não.
- Pois os professores muitos deles têm uma jornada de trabalho super-carregada, em mais de uma escola, durante os três períodos, nos cinco dias da semana. Isso porque o salário anda lá em baixo. A gente começa a achar que é normal que um professor tenha uma jornada diária de trabalho de mais de 8 horas. E faça as contas: para quantos alunos um professor dá aula? Quantos trabalhos e provas ele tem para corrigir?

- É de um batalhão de gente, né não?
- Pois é! Agora imagine que este professor, por mais dedicado que seja, não pode acompanhar a aprendizagem de seus alunos, um por um. Com o tanto de coisas para corrigir, fica tudo meio apressado. A parte mais fácil de tudo é corrigir as provas; o difícil mesmo é conseguir corrigir os alunos, fazer com que eles não errem mais naquele ponto. E uns ficam sem aprender quase nada mesmo.

- Azar desses alunos...
- Não. Azar do professor! Porque essa coisa dos alunos não aprenderem é bem frustrante, sabe? E veja bem: não é por causa do aluno ser ruim, ou do professor ser ruim. Mas é porque as condições de trabalho que enfrentamos é que são ruins, muito ruins, para garantir uma educação de qualidade.

- Ixi, não tinha pensado nisso...
- Então! Junte essa frustração com a sobrecarga de trabalho. Não temos aumento há mais de 3 anos e temos que colocar a comida na mesa. Para isso trabalhamos mais do que agüentamos, nos desgastamos e adoecemos com freqüência.

- Então é por isso que há tantas faltas de professores na escola pública?
- Provavelmente é uma das razões, aliás bem razoável, não? Imagine também que essa vida de correria muitas vezes impede que possamos preparar nossas aulas como gostaríamos, estudar coisas novas sobre nossas matérias. Mas mesmo assim estamos na batalha. Agora pense no seu material.

- Aquele jornal?
- Isso. Assim como ele chegou do nada para você, ele chegou do nada para mim, na véspera. E recebi também uma ?Revista do Professor? em que se pretendia ensinar a mim como ensinar com aquele jornal, aula a aula. Depois do jornal, veio um outro ?Caderno do Professor?, com várias sugestões de seqüências de aulas que podemos dar.

- E isso é ruim, professor?
- Se fossem só sugestões, vá lá! Tem uma história no ar de que vocês alunos seriam avaliados por aquilo que está lá no tal Caderno. Aí, já não é sugestão, é imposição; se eu não seguir a cartilha, vocês dançam.

- Entendi... puts!
- E tem outro lado isso aí. Eu já dou aula há algum tempo, sobre assuntos até semelhantes àqueles do jornal ou do Caderno... teria simplesmente que deixar de lado a minha experiência para seguir uma cartilha que é completamente estranha àquilo que aprendi durante esses anos todos? E tudo aquilo em que acredito, o que sei fazer, pela minha experiência, os caminhos que escolho para as aulas, as questões que privilegio, como eu concebo a educação e o ensino - tudo isto fica de lado? É o que a Secretaria da Educação nos mandou fazer. Ela desprezou nossa experiência, retirou uma conquista nossa: ?a liberdade de cátedra?. É uma situação humilhante, você não acha?

- Eu ficaria bem bravo se fizessem isso comigo.
- E tudo isto tem sido apresentado como a revolução do ensino público paulista. Isso não parece uma grande farsa, quando as condições de trabalho permanecem inalteradas?

- Para dizer o mínimo.
- Se parássemos por aqui a situação já se mostraria revoltante, você não concorda? Mas isso não é tudo. Além de difamar os professores na imprensa, sucatear as escolas, super-explorar nosso trabalho e destruir nossa identidade profissional, o governo agora quer retirar nossos direitos, nossas conquistas históricas através de decretos que restringem nosso direito de faltar quando ficamos doentes e de nos removermos de unidade escolar quando precisamos mudar de bairro, cidade ou região.

- Como assim, professor?
- É que, ao invés de melhorar as condições de trabalho que adoecem os professores e os fazem faltar - o que é um problemão -, o governo decreta que podemos apenas faltar 6 vezes por ano por conta de doença.

- Ah, então quer dizer que se o professor ficar doente em mais de 6 dias por ano ele ganhará ainda menos?
- Isso mesmo.

- Se o cara estiver na pindaíba ele que venha dar aulas doente?
- Parece ser este o recado.

- E o outro decreto, o da tal remoção?
- Se fulano tirar qualquer tipo de licença ou tiver mais de 10 faltas, ele não pode pedir transferência para dar aula em outra escola. Se ele estiver entrando agora na carreira, só poderá se remover daqui a três anos, mesmo se na escola em que foi designado não tenha aulas o suficiente para ele completar sua jornada. Fica condenado a dar aulas em mais de uma escola, mesmo sendo efetivo.

- O sujeito tá lascado então, né?
- Calma, porque não é só isso. Pelo decreto, fica também definido que os concursos para ingresso na carreira serão por diretoria de ensino, e não mais para o Estado todo. Pode acontecer de um candidato obter uma pontuação em que, em uma região estaria classificado, e na outra não. Afora o receio de que o processo e sua impessoalidade fiquem comprometidas. Pior ainda é a situação dos professores que não são efetivos, os ?OFAs?. Muitos deles que já dão aula no Estado há muito tempo. Agora, como se a experiência deles não valesse muita coisa, terão que prestar uma prova, uma seleção.

- Uma avaliação, né?
- É. Mas veja só, que coisa! Os OFAs já não têm garantias de que haja aulas para eles no ano seguinte. São temporários, com relações precárias de emprego. Então, se o sujeito não passa na prova, ou perde a prova por causa de qualquer motivo, ele não poderá assumir aula nenhuma enquanto valer o processo de seleção - um ano, dois? Ninguém sabe. Então, ele de repente pode ficar sem emprego. E, de novo: não é fazendo avaliação e mais avaliação que a educação vai mudar, se não se mexer nas condições de trabalho.

- Faz sentido...
- É uma medida que não tem impacto na educação, mas sim na precarização da vida dos professores. O Estado não quer assumir os vínculos e suas responsabilidades com estes professores. São descartáveis e muitos serão descartados.

- Nossa professor! Como dizia meu avô: ?A situação tá cínica, os pior vai pras clínica?
- Pois é. Antes de ir pras clínica resolvemos fazer uma GREVE pra tentar reverter esta situação.

- Agora me diga o seguinte: e amanhã, vai ter aula?
- Em primeiro lugar, greve não significa ficar parado. É um tipo curioso de paralisação, pois no fundo é uma grande movimentação. Quando se está paralisado, em estado de greve, é que se tem noção de como o cotidiano é que estava em estado de paralisia. Portanto, ao invés de falarmos de paralisação, deveríamos falar de suspensão das atividades cotidianas, uma maneira de colocar em discussão aquilo sobre o que quase não temos condições nem tempo de discutir.

- Poxa! Legal isso! Mas discutir o que, hein?
- Temos bastante coisa pra discutir, não? Entre nós professores, sabemos que o problema não está só no decreto, mas tem a ver também com nosso Plano de Carreira, com definição de uma jornada de trabalho que possa garantir de fato a permanência do professor em uma só escola, apontando para uma política de reajuste salarial. Mas temos também muito a discutir com os alunos. Por isso, pelo menos durante essa semana, poderíamos fazer algumas atividades de greve: reuniões, debates, conversas entre os professores, alunos e pais de alunos. Discutir o que todos queremos, que é uma educação de qualidade para todos.

- É isso aí!
- Ah... e sexta-feira, 20 de junho, às 14:00hs, temos nova Assembléia lá no vão do MASP. Vê se aparece. A gente continua o papo por lá também e tenta dar um jeito nessa situação.

- Até lá então!

retirado do site: CMI Brasil
http://midiaindependente.org/pt/blue/2008/06/422449.shtml

domingo, 22 de junho de 2008

Professores paulistas em greve contra o autoritarismo do governo tucano

foto por Roselene de Jesus Stefanelli


foto por Roselene de Jesus Stefanelli




foto por Raoni Bernardes





Embora a Secretaria da Educação insista em dizer que o número de adesão dos professores ao movimento contra os decretos malucos do Mr. Burns (José Serra) tenha sido muito baixa, segundo a Secretária da Educação "Maria a louca" (Maria Helena) o índice de mobilização da categoria foi de 2%.
Vemos aqui pelas fotos, que o número de professores na rua é muito mais do que os 5 mil manifestantes que foi declarado pela polícia militar.
Então, pelo o que podemos observar, estamos enfrentando no momento um grande problema na educação, pois, depois de que as apostilas para os professores vieram com a palavra ensino grafada "encino" com a letra "c", vemos agora um problema muito grave, mas dessa vez relacionado ao raciocínio lógico, afinal, tanto a polícia quanto a secretária estão com uma enorme dificuldade em realizar cálculos, ou pior, eles não sabem contar, somar 1+1+1 e assim por diante.
Os professores hoje em greve alcançam mais do que os 2% declarados pelo pessoal do "sanatório", isso é um fato.
Também não me assustam essas informações geradas pelos órgãos públicos sobre o número de professores nas ruas, o que me impressiona é a imprensa repetir isso como papagaios.
Que os jornais no Brasil mentem mais do que as novelas, ao menos para mim, não é novidade nenhuma, mas essas mentiras já estão se tornando algo assombroso. Isso é extremamente perigoso, pois, no Brasil as pessoas acreditam tanto no jornal quanto na novela, criando assim uma dominação das massas.
Acredito que o investimento na educação, seja uma das coisas mais importantes de um governo, mas acredito mais ainda, que esse investimento deve ser real, não se melhora a qualidade do ensino com autoritarismo, a dialética é a melhor forma de construção de uma sociedade, o dinheiro deve ser investido nos profissionais, no espaço, nos materiais e não em ações malucas como essas.
Não podemos esquecer que a Escola Pública já foi de excelente qualidade mas, os governos mudam, os professores ficam, então se a qualidade da educação em São Paulo está desse jeito, obviamente a culpa é das propostas educacionais do governo atual, pois os professores ainda são os mesmos.
A única diferença é que os professores não têm mais o governo do estado como aliado na melhoria do ensino, pois o governo é sempre o primeiro a acusar os professores das mazelas da educação.
Mesmo assim os professores continuam... sonham em melhorar o mundo, sonham... como sonham seus alunos. E seguem lutando em meio as desgraças, mas em busca de um campo, de gira-sóis e margaridas.
“Se sientes el dolor de los demás como tu dolor, si la injusticia en el cuerpo del oprimido fuere la injusticia que hiere tu propria piel, si la lágrima que cae del rostro desesperado fuere la lágrima que también tu derramas, si el sueño de los desheredados de esa sociedad cruel y sin piedad fuere tu sueño de una tierra prometida, entonces serás un revolucionario, habrás vivido la solidaridad esencial”
(Ernesto Guevara – CHE)

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Drauzio Varella: Éramos todos negros

Éramos todos negros
A você que se orgulha da cor daprópria pele (seja ela qual for), tenho um conselho: não seja ridículo
ATÉ ONTEM , éramos todos negros. Você dirá: se gorilas e chimpanzés, nossos parentes mais chegados, também o são, e se os primeiros hominídeos nasceram justamente na África negra há 5 milhões de anos, qual a novidade?
A novidade é que não me refiro a antepassados remotos, do tempo das cavernas (em que medíamos um metro de altura), mas a populações européias e asiáticas com aparência física indistinguível da atual.
Trinta anos atrás, quando as técnicas de manipulação do DNA ainda não estavam disponíveis, Luca Cavalli-Sforza, um dos grandes geneticistas do século 20, conduziu um estudo clássico com centenas de grupos étnicos espalhados pelo mundo. Com base nas evidências genéticas encontradas e nos arquivos paleontológicos, Cavalli-Sforza concluiu que nossos avós decidiram emigrar da África para a Europa hámeros 100 mil anos.Como os deslocamentos eram feitos com grande sacrifício, só conseguiram atingir as terras geladas localizadas no norte europeu cerca de 40 mil anos atrás. A adaptação a um continente com invernos rigorosos teve seu preço. Como o faz desde os primórdios da vida na Terra sempre que as condições ambientais mudam, a foice impiedosa da seleção natural ceifou os mais frágeis.
Quem eram eles?
Filhos e netos de negros africanos, nômades, caçadores, pescadores e pastores que se alimentavam predominantemente de carne animal.
Dessas fontes naturais absorviam a vitamina D, elemento essencial para construir ossos fortes, sistema imunológico eficiente e prevenir enfermidades que vão do raquitismo à osteoporose; do câncer, às infecções, ao diabetes e às complicações cardiovasculares.
Há 6.000 anos, quando a agricultura se disseminou pela Europa e fixou as famílias à terra, a dieta se tornou sobretudo vegetariana.
De um lado, essa mudança radical tornou-as menos dependentes da imprevisibilidade da caça e da pesca; de outro, ficou mais problemático o acesso às fontes devitamina D.
Para suprir as necessidades de cálcio do esqueleto e garantira integridade das demais funções da vitamina D, a seleção natural conferiu vantagem evolutiva aos que desenvolveram um mecanismo alternativo para obter esse micronutriente: a síntese na pele mediada pela absorção das radiações ultravioletas da luz do sol.
A dificuldade da pele negra de absorver raios ultravioletas e a necessidade de cobrir o corpo para enfrentar o frio deram origem às forças seletivas que privilegiaram a sobrevivênciadas crianças com menor concentração de melanina na pele.
As previsões de Cavalli-Sforza foram confirmadas por estudos científicos recentes.
Na Universidade Stanford, Noah Rosemberg e JonathanPritchard realizaram exames de DNA em 52 grupos dehabitantes da Ásia, África, Europa e Américas.
Conseguiram dividi-los em cinco grupos étnicos cujos ancestrais estiveram isolados por desertos extensos, oceanos ou montanhas intransponíveis: os africanos da região abaixodo Saara, os asiáticos do leste, os europeus e asiáticos que vivem a oeste do Himalaia, os habitantes de Nova Guiné e Melanésia e os indígenas das Américas.
Quando os autores tentaram atribuir identidade genética aos habitantes do sul da Índia, entretanto, verificaram que suas características eram comuns a europeus e a asiáticos, achado compatível com a influência desses povos na região.
Concluíram, então, que só é possível identificar indivíduos com grandes semelhanças genéticas quando descendem de populações isoladas por barreiras geográficas que impediram a miscigenação.
No ano passado, foi identificado um gene, SLC24A5, provavelmente responsável pelo aparecimento da pele branca européia. Num estudo publicado na revista "Science", o grupo de KeithCheng seqüenciou esse gene em europeus, asiáticos, africanos e indígenas do continente americano.Tomando por base o número e a periodicidade das mutações ocorridas, os cálculos iniciais sugeriram que as variantes responsáveis pelo clareamento da pele estabeleceram-se nas populações européias há apenas 18 mil anos.
No entanto, como as margens de erro nessas estimativas são apreciáveis, os pesquisadores tomaram a iniciativa deseqüenciar outros genes, localizados em áreas vizinhas dogenoma. Esse refinamento técnico permitiu concluir que apele branca surgiu na Europa, num período que vai de 6.000 a 12 mil anos atrás.
A você, leitor, que se orgulha da cor daprópria pele (seja ela qual for), tenho apenas um conselho: não seja ridículo.
Fonte: Folha de S.Paulo - Drauzio Varella: Éramos todos negros - 26/04/2008

quarta-feira, 4 de junho de 2008

CANÇÃO DO AMOR IMPREVISTO

Eu sou um homem fechado.
O mundo me tornou egoísta e mau.
E a minha poesia é um vício triste,
Desesperado e solitário
Que eu faço tudo por abafar.

Mas tu apareceste com a tua boca fresca de madrugada,
Com o teu passo leve,
Com esses teus cabelos...

E o homem taciturno ficou imóvel, sem compreender
nada, numa alegria atônita...

A súbita, a dolorosa alegria de um espantalho inútil
Aonde viessem pousar os passarinhos.

Mario Quintana