segunda-feira, 28 de abril de 2008

O anjo mais velho




(Fernando Anitelli)

"O dia mente a cor da noite
E o diamante a cor dos olhos
Os olhos mentem dia e noite a dor da gente"

Enquanto houver você do outro lado
Aqui do outro eu consigo me orientar
A cena repete a cena se inverte
enchendo a minha alma d'aquilo que outrora eu deixei de acreditar

tua palavra, tua história
tua verdade fazendo escola
e tua ausência fazendo silêncio em todo lugar

metade de mim
agora é assim
de um lado a poesia o verbo a saudade
do outro a luta, a força e a coragem pra chegar no fim
e o fim é belo incerto... depende de como você vê
o novo, o credo, a fé que você deposita em você e só

Só enquanto eu respirar
Vou me lembrar de você




*Show de "O Teatro Mágico" na virada cultural foi muito foda.


Realmente absurdo.


Fotos: Daigo Oliva

domingo, 20 de abril de 2008

Rondó da Liberdade


É preciso não ter medo,

é preciso ter a coragem de dizer.


Há os que têm vocação para escravo,

mas há os escravos que se revoltam contra a escravidão.


Não ficar de joelhos,

que não é racional renunciar a ser livre.

Mesmo os escravos por vocação

devem ser obrigados a ser livres,

quando as algemas forem quebradas.


É preciso não ter medo,

é preciso ter a coragem de dizer.


O homem deve ser livre...

O amor é que não se detém ante nenhum obstáculo,

e pode mesmo existir quando não se é livre.

E no entanto ele é em si mesmo

a expressão mais elevada do que houver de mais livre

em todas as gamas do humano sentimento.


É preciso não ter medo,

é preciso ter a coragem de dizer.



Carlos Marighella
São Paulo, Presídio Especial, 1939.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

...as cidades e os simbolos...

Seguindo por três dias as paredes da muralha.
Que cercam as cidades que não querem ser tocadas.
E caminho. Tento pular muro.
Quando percebo a altura fico meio inseguro.
Mas do alto já dá pra observá-la.
Ver suas virtudes e em que posso melhorá-la.
Acrescentar, modificar
E ver na cidade que é provável transmutar.
Mas me esqueci nessa viagem sou só um observador.
Só vim pra relatar o encontrado e o que me encontrou.
Então sigo por suas pontes de concreto
E percebo que nela existem mundo paralelos
Várias cidades se entrecruzam se relacionam em um mesmo local.
Tudo é multiplicado em uma cidade multifuncional.
Seus símbolos, seus gestos, dizem coisas que variam.
A percepção do receptor é quem dita o caminho
Cada fachada de suas casas e edifícios.
É sempre variável e nunca é preciso.
Em meio a uma confusão de significados.
E vendo tudo aquilo, fico sempre impressionado.
Mas tenho que prosseguir, não vim pra ficar parado.
Tenho que andar atento a todos os lados.
E guardar em minha mente tudo que é encontrado.
Nas cidades e seus símbolos o silêncio é falado.
O antagonismo de suas imagens é modificado.
Mesmo calculando não encontra um resultado.
Preciso,
Os espelhos das cidades são seus rios poluidos.
O que acontece nela em seu rio é refletido.
Sua autodestruição sua voracidade
Suas ruínas aumentam em grande velocidade.
Mas mesmo suas ruínas são magnífica beleza.
Carregam sua história alegrias e tristezas
Escute-a, a cidade está falando.
Seus mais belos encantos estão se modificando.
A transformação é inerente a sua existência
Para entendê-la muita calma e sapiência.
Observação virtude dos sábios
Assim passeia pela cidade suavidade em seus lábios
O encanto do seu povo é algo incontestável.
Quando os vejo sinto em meu peito algo inexplicável.
A cidade os reflete a todo instante.
As coisas não param, são inconstantes.
Parece que ela está os paquerando a cada minuto.
A relação entre todos ainda sim é algo confuso
Minha cabeça está vazia, meus olhos estão cheios.
As imagens nela criada transformam os meios.
Eu perplexo, tento, mas parece impossível entende-la
A luz que ilumina e os afasta é a mesma

quinta-feira, 10 de abril de 2008

LIBERDADE

Não ficarei tão só no campo da arte,
e, ânimo firme, sobranceiro e forte,
tudo farei por ti para exaltar-te,
serenamente, alheio à própria sorte.

Para que eu possa um dia contemplar-te
dominadora, em férvido transporte,
direi que és bela e pura em toda parte,
por maior risco em que essa audácia importe.

Queira-te eu tanto, e de tal modo em suma,
que não exista força humana alguma
que esta paixão embriagadora dome.

E que eu por ti, se torturado for,
possa feliz, indiferente à dor,
morrer sorrindo a murmurar teu nome”

Carlos Marighella São Paulo, Presídio Especial, 1939.

quarta-feira, 9 de abril de 2008

"Todos nós, brasileiros, somos carne da carne daqueles pretos e índios supliciados. Como descendentes de escravos e de senhores de escravos seremos sempre marcados pelo exercício da brutalidade sobre aqueles homens, mulheres e crianças. Esta é a mais terrível de nossas heranças. Mas nossa crescente indignação contra esta herança maldita nos dará forças para, amanhã, conter os possessos e criar aqui, neste país, uma sociedade solidária. "

Darcy Ribeiro

quarta-feira, 2 de abril de 2008

ASSOMBROS


Às vezes, pequenos grandes terremotos
ocorrem do lado esquerdo do meu peito.

Fora, não se dão conta os desatentos.

Entre a aorta e a omoplata rolam
alquebrados sentimentos.

Entre as vértebras e as costelas
há vários esmagamentos.

Os mais íntimos
já me viram remexendo escombros.
Em mim há algo imóvel e soterrado
em permanente assombro.

Affonso Romano de Sant'Anna (Lado Esquerdo do Meu Peito)