terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Le voyeur

No úmido porão, terra batida,
lar de escorpiões,
procura-se a greta entre as tábuas
do soalho
por onde se surpreenda a flor
escênciado corpo das mulheres
na sombra de vestido refolhados
que cobrem até os pés
a escultura cifrada.

Entro rastejante
dobro o corpo em dois
à procura da greta reveladora
de não sei que mistério radioso
ou sombrio
só a homens ofertado
em sigilo de quarto e noite alta.

Encontro, mina de ouro?
Contenho respiração.
Dispara o coração
no fim de longa espera
ao rumor de saias lá em cima
ai de mim, que nunca se devas
sampor mais que o desejo aguce a vista
e o sangue implore uma visão
de céu e terra encavalados.

Nada
nada
nada
senão a sola negra dos sapatos
tapando a greta do soalho.

Saio rastejante
olhos tortos
pescoço dolorido.
A triste polução foi adiada.

Carlos Drummond de Andrade

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