quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Reveillon

"Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial.Industrializou a esperança fazendo-a funcionar no limite da exaustão.Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez com outro número e outra vontade de acreditar que daqui para adiante vai ser diferente".

Carlos Drumont de Andrade

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.

"Os Três Mal-Amados "João Cabral de Melo Neto - Obras Completas

domingo, 26 de outubro de 2008

Manifesto Dadá

Dadá é uma nova tendência da arte. Percebe-se que o é porque, sendo até agora desconhecido, amanhã toda a Zurique vai falar dele. Dadá vem do dicionário. É bestialmente simples. Em francês quer dizer "cavalo de pau" . Em alemão: "Não me chateies, faz favor, adeus, até à próxima!" Em romeno: "Certamente, claro, tem toda a razão, assim é. Sim, senhor, realmente. Já tratamos disso." E assim por diante.
Uma palavra internacional. Apenas uma palavra e uma palavra como movimento. É simplesmente bestial. Ao fazer dela uma tendência da arte, é claro que vamos arranjar complicações. Psicologia Dadá, literatura Dadá, burguesia Dadá e vós, excelentíssimo poeta, que sempre poetastes com palavras, mas nunca a palavra propriamente dita. Guerra mundial Dadá que nunca mais acaba, revolução Dadá que nunca mais começa. Dadá, vós, amigos e Também poetas, queridíssimos Evangelistas. Dadá Tzara, Dadá Huelsenbeck, Dadá m'Dadá, Dadá mhm'Dadá, Dadá Hue, Dadá Tza.
Como conquistar a eterna bemaventurança? Dizendo Dadá. Como ser célebre? Dizendo Dadá. Com nobre gesto e maneiras finas. Até à loucura, até perder a consciência. Como desfazer-nos de tudo o que é enguia e dia-a-dia, de tudo o que é simpático e linfático, de tudo o que é moralizado, animalizado, enfeitado? Dizendo Dadá. Dadá é a alma-do-mundo, Dadá é o Coiso, Dadá é o melhor sabão-de-leite-de-lírio do mundo. Dadá Senhor Rubiner, Dadá Senhor Korrodi, Dadá Senhor Anastasius Lilienstein.
Quer dizer, em alemão: a hospitalidade da Suíça é incomparável, e em estética tudo depende da norma.
Leio versos que não pretendem menos que isto: dispensar a linguagem. Dadá Johann Fuchsgang Goethe. Dadá Stendhal. Dadá Buda, Dalai Lama, Dadá m'Dadá, Dadá m'Dadá, Dadá mhm'Dadá. Tudo depende da ligação e de esta ser um pouco interrompida. Não quero nenhuma palavra que tenha sido descoberta por outrem. Todas as palavras foram descobertas pelos outros. Quero a minha própria asneira, e vogais e consoantes também que lhe correspondam. Se uma vibração mede sete centímetros, quero palavras que meçam precisamente sete centímetros. As palavras do senhor Silva só medem dois centímetros e meio.
Assim podemos ver perfeitamente como surge a linguagem articulada. Pura e simplesmente deixo cair os sons. Surgem palavras, ombros de palavras; pernas, braços, mãos de palavras. Au, oi, u. Não devemos deixar surgir muitas palavras. Um verso é a oportunidade de dispensarmos palavras e linguagem. Essa maldita linguagem à qual se cola a porcaria como à mão do traficante que as moedas gastaram. A palavra, quero-a quando acaba e quando começa.
Cada coisa tem a sua palavra; pois a palavra própria transformou-se em coisa. Porque é que a árvore não há-de chamar-se plupluch e pluplubach depois da chuva? E porque é que raio há-de chamar-se seja o que for? Havemos de pendurar a boca nisso? A palavra, a palavra, a dor precisamente aí, a palavra, meus senhores, é uma questão pública de suprema importância.
Zurique, 14 de Julho de 1916

terça-feira, 21 de outubro de 2008

O açucar.


O branco açúcar que adoçará meu café

Nesta manhã de Ipanema

Não foi produzido por mim

Nem surgiu dentro do açucareiro por milagre.


Vejo-o puroE afável ao paladar

Como beijo de moça, água

Na pele, flor

Que se dissolve na boca. Mas este açúcar

Não foi feito por mim.


Este açúcar veio

Da mercearia da esquina e

Tampouco o fez o Oliveira,

Dono da mercearia.

Este açúcar veio

De uma usina de açúcar em Pernambuco

Ou no Estado do Rio

E tampouco o fez o dono da usina.


Este açúcar era cana

E veio dos canaviais extensos

Que não nascem por acaso

No regaço do vale.


Em lugares distantes,

Onde não há hospital,

Nem escola, homens que não sabem ler e morrem de fome

Aos 27 anos

Plantaram e colheram a cana

Que viraria açúcar.

Em usinas escuras, homens de vida amarga

E dura

Produziram este açúcar

Branco e puro

Com que adoço meu café esta manhã

Em Ipanema.


Ferreira Gullar

sábado, 13 de setembro de 2008

Risoflora


Eu sou um caranguejo e estou de andada

Só por sua causa, só por você, só por você

E quando estou contigo eu quero gostar

E quando estou um pouco mais junto eu quero te amar

E ai de deitar de lado como a flor que eu tinha na mão

E ai esqueci na calçada só por esquecer

Apenas porque você não sabe voltar pra mim


Oh Risoflora !

Vou ficar de andada até te achar

Prometo meu amor vou me regenerar


Oh Risoflora !

Não vou dar mais bobeira dentro de um caritó

Oh Risoflora, não me deixe só

Eu sou um carangueijo e quero gostar

Enquanto estou um pouco mais junto eu quero te amar

E acho que você não sabe o que é isso não

E se sabe pelo menos você pode fingir

E em vez de cair em suas mãos preferia os seus braços

E em meus braços te levarei como uma flor

Pra minha maloca na beira do rio, meu amor !


Oh Risoflora !

Vou ficar de andada até te achar

Prometo meu amor vou me regenerar


Oh Risoflora !

Não vou dar mais bobeira dentro de um caritó

Oh Risoflora, não me deixe só.
Chico Science & Nação Zumbi

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Don Quijote de la Mancha

XXI / ANTEFINAL NOTURNO

Dorme, Alonso Quejana.

Pelejaste mais do que a peleja

(e perdeste).

Amaste mais do que amor se deixa amar.

O ímpeto

o relento

a desmesura

fábulas que davam rumo ao sem-rumo

de tua vida levada a tapa

e a coice d'armas,

de que valeu o tudo desse nada?

Vilões discutem e brigam de braço

enquanto dormes.

Neutras estátuas de alimárias velam

a areia escura de teu sono

despido de todo encantamento.

Dorme, Alonso, andante

petrificado

cavaleiro-desengano.

Carlos Drummond de Andrade

video

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Prato de Flores

Mais perto da essência
O Sentido respira
Mas nem sempre o ar mais puro se tem

Mais perto da essência
O sentido respira
Consumido no perfume que vem

Eu vou lhe dar um prato de flores
E no seu ventre vou fazer o meu jardim
Que vai florir x2
Quando os espinhos lançarem as dores
Do cheiro forte do jardim que não tem fim
Que não tem fim x2

E o seu umbigo ainda em flor
Vai mexer com o tempo vai matar a dor denovo
E o seu umbigo ainda em flor
Vai mexer com o tempo vai matar a dor denovo

E os espinhos são pra quem pensa em enganar a flor
A beleza rédia prosa da dor
E os espinhos são pra quem pensa em enganar a flor
A beleza rédia prosa da dor

E o seu umbigo ainda em flor
Vai mexer com o tempo vai matar a dor denovo
Eu vou lhe dar um prato de flores
E no seu ventre vou fazer o meu jardim
video

sábado, 26 de julho de 2008

As cidades ocultas...

O espaço como labirinto de si mesmo
Numa "urbanofagia" que constrói conceitos
A expansão da retração também é movimento
Fecho a gaveta após ter aberto o meu pensamento
Na dimensão exata deste mesmo espaço
Segue a cidade habitada por seres alados
Abrindo as portas dos sentidos que eram guardados
No cromatismo do baú que é iluminado
O cheiro envolvente e também incandescente
Se faz indecente o que é inocente
Do verde que cria o amarelo e o vermelho
Até a dimensão que existe além do espelho
Ocultismo pichado na parede do vento
No tempo do espaço ou no espaço do tempo
Desarranjando as horas espaciais do corriqueiro
O deus que cria o dia acendendo o isqueiro

De lugar nenhum em lugar algum
Observando o que não vejo

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Estamos em GREVE. E agora?

- Professor, sexta-feira eu passei pela Praça da República e vi como estava cheia. Você também estava lá?
- Estava.

- E o que vocês decidiram?
- Decidimos que estamos em GREVE.

- Nossa! Mas por que uma decisão tão radical?
- Vamos começar pelo começo. Não sei se você já reparou, mas a escola pública não anda muito bem das pernas. O governo e os jornais dizem a torto e a direito que a culpa é dos professores. Incompetentes, faltosos, atrasados... estes entre outros adjetivos são usados para qualificar os professores e, por extensão, para culpá-los pelo péssimo desempenho dos alunos. Mas será que é tudo culpa dos professores?

- Se os alunos não aprendem direito deve ser por que os professores não ensinam direito, né?
- É exatamente nisso que querem que vocês acreditem. Mas pense bem: por que será que os professores não estão conseguindo ensinar direito? Você acha que é a mesma coisa dar aulas pra 35 e pra 50 alunos?

- Obviamente não.
- Pois os professores geralmente têm que lidar com salas super-lotadas, em que faltam até carteiras pra alguns alunos. Agora pense em mais outra coisa. Será a mesma coisa dar 20 aulas ou 30 numa semana? Ou 50?

- Novamente: não.
- Pois os professores muitos deles têm uma jornada de trabalho super-carregada, em mais de uma escola, durante os três períodos, nos cinco dias da semana. Isso porque o salário anda lá em baixo. A gente começa a achar que é normal que um professor tenha uma jornada diária de trabalho de mais de 8 horas. E faça as contas: para quantos alunos um professor dá aula? Quantos trabalhos e provas ele tem para corrigir?

- É de um batalhão de gente, né não?
- Pois é! Agora imagine que este professor, por mais dedicado que seja, não pode acompanhar a aprendizagem de seus alunos, um por um. Com o tanto de coisas para corrigir, fica tudo meio apressado. A parte mais fácil de tudo é corrigir as provas; o difícil mesmo é conseguir corrigir os alunos, fazer com que eles não errem mais naquele ponto. E uns ficam sem aprender quase nada mesmo.

- Azar desses alunos...
- Não. Azar do professor! Porque essa coisa dos alunos não aprenderem é bem frustrante, sabe? E veja bem: não é por causa do aluno ser ruim, ou do professor ser ruim. Mas é porque as condições de trabalho que enfrentamos é que são ruins, muito ruins, para garantir uma educação de qualidade.

- Ixi, não tinha pensado nisso...
- Então! Junte essa frustração com a sobrecarga de trabalho. Não temos aumento há mais de 3 anos e temos que colocar a comida na mesa. Para isso trabalhamos mais do que agüentamos, nos desgastamos e adoecemos com freqüência.

- Então é por isso que há tantas faltas de professores na escola pública?
- Provavelmente é uma das razões, aliás bem razoável, não? Imagine também que essa vida de correria muitas vezes impede que possamos preparar nossas aulas como gostaríamos, estudar coisas novas sobre nossas matérias. Mas mesmo assim estamos na batalha. Agora pense no seu material.

- Aquele jornal?
- Isso. Assim como ele chegou do nada para você, ele chegou do nada para mim, na véspera. E recebi também uma ?Revista do Professor? em que se pretendia ensinar a mim como ensinar com aquele jornal, aula a aula. Depois do jornal, veio um outro ?Caderno do Professor?, com várias sugestões de seqüências de aulas que podemos dar.

- E isso é ruim, professor?
- Se fossem só sugestões, vá lá! Tem uma história no ar de que vocês alunos seriam avaliados por aquilo que está lá no tal Caderno. Aí, já não é sugestão, é imposição; se eu não seguir a cartilha, vocês dançam.

- Entendi... puts!
- E tem outro lado isso aí. Eu já dou aula há algum tempo, sobre assuntos até semelhantes àqueles do jornal ou do Caderno... teria simplesmente que deixar de lado a minha experiência para seguir uma cartilha que é completamente estranha àquilo que aprendi durante esses anos todos? E tudo aquilo em que acredito, o que sei fazer, pela minha experiência, os caminhos que escolho para as aulas, as questões que privilegio, como eu concebo a educação e o ensino - tudo isto fica de lado? É o que a Secretaria da Educação nos mandou fazer. Ela desprezou nossa experiência, retirou uma conquista nossa: ?a liberdade de cátedra?. É uma situação humilhante, você não acha?

- Eu ficaria bem bravo se fizessem isso comigo.
- E tudo isto tem sido apresentado como a revolução do ensino público paulista. Isso não parece uma grande farsa, quando as condições de trabalho permanecem inalteradas?

- Para dizer o mínimo.
- Se parássemos por aqui a situação já se mostraria revoltante, você não concorda? Mas isso não é tudo. Além de difamar os professores na imprensa, sucatear as escolas, super-explorar nosso trabalho e destruir nossa identidade profissional, o governo agora quer retirar nossos direitos, nossas conquistas históricas através de decretos que restringem nosso direito de faltar quando ficamos doentes e de nos removermos de unidade escolar quando precisamos mudar de bairro, cidade ou região.

- Como assim, professor?
- É que, ao invés de melhorar as condições de trabalho que adoecem os professores e os fazem faltar - o que é um problemão -, o governo decreta que podemos apenas faltar 6 vezes por ano por conta de doença.

- Ah, então quer dizer que se o professor ficar doente em mais de 6 dias por ano ele ganhará ainda menos?
- Isso mesmo.

- Se o cara estiver na pindaíba ele que venha dar aulas doente?
- Parece ser este o recado.

- E o outro decreto, o da tal remoção?
- Se fulano tirar qualquer tipo de licença ou tiver mais de 10 faltas, ele não pode pedir transferência para dar aula em outra escola. Se ele estiver entrando agora na carreira, só poderá se remover daqui a três anos, mesmo se na escola em que foi designado não tenha aulas o suficiente para ele completar sua jornada. Fica condenado a dar aulas em mais de uma escola, mesmo sendo efetivo.

- O sujeito tá lascado então, né?
- Calma, porque não é só isso. Pelo decreto, fica também definido que os concursos para ingresso na carreira serão por diretoria de ensino, e não mais para o Estado todo. Pode acontecer de um candidato obter uma pontuação em que, em uma região estaria classificado, e na outra não. Afora o receio de que o processo e sua impessoalidade fiquem comprometidas. Pior ainda é a situação dos professores que não são efetivos, os ?OFAs?. Muitos deles que já dão aula no Estado há muito tempo. Agora, como se a experiência deles não valesse muita coisa, terão que prestar uma prova, uma seleção.

- Uma avaliação, né?
- É. Mas veja só, que coisa! Os OFAs já não têm garantias de que haja aulas para eles no ano seguinte. São temporários, com relações precárias de emprego. Então, se o sujeito não passa na prova, ou perde a prova por causa de qualquer motivo, ele não poderá assumir aula nenhuma enquanto valer o processo de seleção - um ano, dois? Ninguém sabe. Então, ele de repente pode ficar sem emprego. E, de novo: não é fazendo avaliação e mais avaliação que a educação vai mudar, se não se mexer nas condições de trabalho.

- Faz sentido...
- É uma medida que não tem impacto na educação, mas sim na precarização da vida dos professores. O Estado não quer assumir os vínculos e suas responsabilidades com estes professores. São descartáveis e muitos serão descartados.

- Nossa professor! Como dizia meu avô: ?A situação tá cínica, os pior vai pras clínica?
- Pois é. Antes de ir pras clínica resolvemos fazer uma GREVE pra tentar reverter esta situação.

- Agora me diga o seguinte: e amanhã, vai ter aula?
- Em primeiro lugar, greve não significa ficar parado. É um tipo curioso de paralisação, pois no fundo é uma grande movimentação. Quando se está paralisado, em estado de greve, é que se tem noção de como o cotidiano é que estava em estado de paralisia. Portanto, ao invés de falarmos de paralisação, deveríamos falar de suspensão das atividades cotidianas, uma maneira de colocar em discussão aquilo sobre o que quase não temos condições nem tempo de discutir.

- Poxa! Legal isso! Mas discutir o que, hein?
- Temos bastante coisa pra discutir, não? Entre nós professores, sabemos que o problema não está só no decreto, mas tem a ver também com nosso Plano de Carreira, com definição de uma jornada de trabalho que possa garantir de fato a permanência do professor em uma só escola, apontando para uma política de reajuste salarial. Mas temos também muito a discutir com os alunos. Por isso, pelo menos durante essa semana, poderíamos fazer algumas atividades de greve: reuniões, debates, conversas entre os professores, alunos e pais de alunos. Discutir o que todos queremos, que é uma educação de qualidade para todos.

- É isso aí!
- Ah... e sexta-feira, 20 de junho, às 14:00hs, temos nova Assembléia lá no vão do MASP. Vê se aparece. A gente continua o papo por lá também e tenta dar um jeito nessa situação.

- Até lá então!

retirado do site: CMI Brasil
http://midiaindependente.org/pt/blue/2008/06/422449.shtml

domingo, 22 de junho de 2008

Professores paulistas em greve contra o autoritarismo do governo tucano

foto por Roselene de Jesus Stefanelli


foto por Roselene de Jesus Stefanelli




foto por Raoni Bernardes





Embora a Secretaria da Educação insista em dizer que o número de adesão dos professores ao movimento contra os decretos malucos do Mr. Burns (José Serra) tenha sido muito baixa, segundo a Secretária da Educação "Maria a louca" (Maria Helena) o índice de mobilização da categoria foi de 2%.
Vemos aqui pelas fotos, que o número de professores na rua é muito mais do que os 5 mil manifestantes que foi declarado pela polícia militar.
Então, pelo o que podemos observar, estamos enfrentando no momento um grande problema na educação, pois, depois de que as apostilas para os professores vieram com a palavra ensino grafada "encino" com a letra "c", vemos agora um problema muito grave, mas dessa vez relacionado ao raciocínio lógico, afinal, tanto a polícia quanto a secretária estão com uma enorme dificuldade em realizar cálculos, ou pior, eles não sabem contar, somar 1+1+1 e assim por diante.
Os professores hoje em greve alcançam mais do que os 2% declarados pelo pessoal do "sanatório", isso é um fato.
Também não me assustam essas informações geradas pelos órgãos públicos sobre o número de professores nas ruas, o que me impressiona é a imprensa repetir isso como papagaios.
Que os jornais no Brasil mentem mais do que as novelas, ao menos para mim, não é novidade nenhuma, mas essas mentiras já estão se tornando algo assombroso. Isso é extremamente perigoso, pois, no Brasil as pessoas acreditam tanto no jornal quanto na novela, criando assim uma dominação das massas.
Acredito que o investimento na educação, seja uma das coisas mais importantes de um governo, mas acredito mais ainda, que esse investimento deve ser real, não se melhora a qualidade do ensino com autoritarismo, a dialética é a melhor forma de construção de uma sociedade, o dinheiro deve ser investido nos profissionais, no espaço, nos materiais e não em ações malucas como essas.
Não podemos esquecer que a Escola Pública já foi de excelente qualidade mas, os governos mudam, os professores ficam, então se a qualidade da educação em São Paulo está desse jeito, obviamente a culpa é das propostas educacionais do governo atual, pois os professores ainda são os mesmos.
A única diferença é que os professores não têm mais o governo do estado como aliado na melhoria do ensino, pois o governo é sempre o primeiro a acusar os professores das mazelas da educação.
Mesmo assim os professores continuam... sonham em melhorar o mundo, sonham... como sonham seus alunos. E seguem lutando em meio as desgraças, mas em busca de um campo, de gira-sóis e margaridas.
“Se sientes el dolor de los demás como tu dolor, si la injusticia en el cuerpo del oprimido fuere la injusticia que hiere tu propria piel, si la lágrima que cae del rostro desesperado fuere la lágrima que también tu derramas, si el sueño de los desheredados de esa sociedad cruel y sin piedad fuere tu sueño de una tierra prometida, entonces serás un revolucionario, habrás vivido la solidaridad esencial”
(Ernesto Guevara – CHE)

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Drauzio Varella: Éramos todos negros

Éramos todos negros
A você que se orgulha da cor daprópria pele (seja ela qual for), tenho um conselho: não seja ridículo
ATÉ ONTEM , éramos todos negros. Você dirá: se gorilas e chimpanzés, nossos parentes mais chegados, também o são, e se os primeiros hominídeos nasceram justamente na África negra há 5 milhões de anos, qual a novidade?
A novidade é que não me refiro a antepassados remotos, do tempo das cavernas (em que medíamos um metro de altura), mas a populações européias e asiáticas com aparência física indistinguível da atual.
Trinta anos atrás, quando as técnicas de manipulação do DNA ainda não estavam disponíveis, Luca Cavalli-Sforza, um dos grandes geneticistas do século 20, conduziu um estudo clássico com centenas de grupos étnicos espalhados pelo mundo. Com base nas evidências genéticas encontradas e nos arquivos paleontológicos, Cavalli-Sforza concluiu que nossos avós decidiram emigrar da África para a Europa hámeros 100 mil anos.Como os deslocamentos eram feitos com grande sacrifício, só conseguiram atingir as terras geladas localizadas no norte europeu cerca de 40 mil anos atrás. A adaptação a um continente com invernos rigorosos teve seu preço. Como o faz desde os primórdios da vida na Terra sempre que as condições ambientais mudam, a foice impiedosa da seleção natural ceifou os mais frágeis.
Quem eram eles?
Filhos e netos de negros africanos, nômades, caçadores, pescadores e pastores que se alimentavam predominantemente de carne animal.
Dessas fontes naturais absorviam a vitamina D, elemento essencial para construir ossos fortes, sistema imunológico eficiente e prevenir enfermidades que vão do raquitismo à osteoporose; do câncer, às infecções, ao diabetes e às complicações cardiovasculares.
Há 6.000 anos, quando a agricultura se disseminou pela Europa e fixou as famílias à terra, a dieta se tornou sobretudo vegetariana.
De um lado, essa mudança radical tornou-as menos dependentes da imprevisibilidade da caça e da pesca; de outro, ficou mais problemático o acesso às fontes devitamina D.
Para suprir as necessidades de cálcio do esqueleto e garantira integridade das demais funções da vitamina D, a seleção natural conferiu vantagem evolutiva aos que desenvolveram um mecanismo alternativo para obter esse micronutriente: a síntese na pele mediada pela absorção das radiações ultravioletas da luz do sol.
A dificuldade da pele negra de absorver raios ultravioletas e a necessidade de cobrir o corpo para enfrentar o frio deram origem às forças seletivas que privilegiaram a sobrevivênciadas crianças com menor concentração de melanina na pele.
As previsões de Cavalli-Sforza foram confirmadas por estudos científicos recentes.
Na Universidade Stanford, Noah Rosemberg e JonathanPritchard realizaram exames de DNA em 52 grupos dehabitantes da Ásia, África, Europa e Américas.
Conseguiram dividi-los em cinco grupos étnicos cujos ancestrais estiveram isolados por desertos extensos, oceanos ou montanhas intransponíveis: os africanos da região abaixodo Saara, os asiáticos do leste, os europeus e asiáticos que vivem a oeste do Himalaia, os habitantes de Nova Guiné e Melanésia e os indígenas das Américas.
Quando os autores tentaram atribuir identidade genética aos habitantes do sul da Índia, entretanto, verificaram que suas características eram comuns a europeus e a asiáticos, achado compatível com a influência desses povos na região.
Concluíram, então, que só é possível identificar indivíduos com grandes semelhanças genéticas quando descendem de populações isoladas por barreiras geográficas que impediram a miscigenação.
No ano passado, foi identificado um gene, SLC24A5, provavelmente responsável pelo aparecimento da pele branca européia. Num estudo publicado na revista "Science", o grupo de KeithCheng seqüenciou esse gene em europeus, asiáticos, africanos e indígenas do continente americano.Tomando por base o número e a periodicidade das mutações ocorridas, os cálculos iniciais sugeriram que as variantes responsáveis pelo clareamento da pele estabeleceram-se nas populações européias há apenas 18 mil anos.
No entanto, como as margens de erro nessas estimativas são apreciáveis, os pesquisadores tomaram a iniciativa deseqüenciar outros genes, localizados em áreas vizinhas dogenoma. Esse refinamento técnico permitiu concluir que apele branca surgiu na Europa, num período que vai de 6.000 a 12 mil anos atrás.
A você, leitor, que se orgulha da cor daprópria pele (seja ela qual for), tenho apenas um conselho: não seja ridículo.
Fonte: Folha de S.Paulo - Drauzio Varella: Éramos todos negros - 26/04/2008

quarta-feira, 4 de junho de 2008

CANÇÃO DO AMOR IMPREVISTO

Eu sou um homem fechado.
O mundo me tornou egoísta e mau.
E a minha poesia é um vício triste,
Desesperado e solitário
Que eu faço tudo por abafar.

Mas tu apareceste com a tua boca fresca de madrugada,
Com o teu passo leve,
Com esses teus cabelos...

E o homem taciturno ficou imóvel, sem compreender
nada, numa alegria atônita...

A súbita, a dolorosa alegria de um espantalho inútil
Aonde viessem pousar os passarinhos.

Mario Quintana

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Corinthians time de origem operária, por isso o time da massa!!



CORINTHIANS: fundação e origens
Fundação: 01/09/1910
Origens: A vinda dos quadros estrangeiros para São Paulo causava nova onda de entusiasmo pelo futebol e muitas vezes, após regressarem, esses quadros estrangeiros deixavam a inspiração para jovens futebolistas que fundavam clubes locais em sua homenagem, tomando suas denominações. Assim, em 1910, após a vinda do Corinthians Casuals da Inglaterra, fundava-se em São Paulo o Sport Club Corinthians Paulista. Inicialmente, a escolha do nome passou pela avaliação de outras sugestões como, por exemplo, Santos Dumont e Carlos Gomes, mas os fundadores optaram pelo nome de Corinthians, ainda impressionados com a ótima passagem da equipe inglesa pela cidade de São Paulo naquele mesmo ano.
O Corinthians nasceu no bairro do Bom Retiro, então típico bairro de imigrantes, sendo que muitos de seus fundadores eram empregados da Companhia São Paulo Railway. As reuniões preparatórias se deram num salão de barbeiro na Rua dos Italianos, esquina com a Rua Julio Conceição, propriedade de Salvador Bataglia, irmão do primeiro presidente corintiano, Miguel Bataglia, e ali foi lavrada a primeira ata de fundação em 1º de Setembro.
A primeira sede foi instalada na Rua Cônego Martins, bar e confeitaria de Afonso Desiderio, cunhado de J. B. Maurício, que viria a ser seu terceiro presidente. Os primeiros anos foram de atividade varzeana, a exemplo de tantos outros clubes.

Os destaques que marcam a fundação do Corinthians são:

■ o objetivo inicial era a criação de uma nova equipe de futebol para continuar atuando na várzea paulistana [até porque era sabido por todos que a liga da elite tinha enorme preconceito de equipes populares da várzea].

■ a característica comum que reuniu os fundadores e atraiu os primeiros simpatizantes era serem operários da região do Bom Retiro, notadamente da “São Paulo Railway”. A origem étnica não era o referencial mas sim a classe social [trabalhadores] e a região de origem [Bom Retiro], havendo espanhóis, portugueses, italianos e até mesmo ingleses entre os fundadores e pioneiros, entre eles:

AMBRÓSIO, Joaquim - BATAGLIA, Miguel - BATAGLIA, Salvador - CAMPBELL, Jorge - CORREIA, Anselmo - DESIDERIO, Afonso - LOPOMO, Salvador - LOTITO, Emilio - MAGNANI, Alexandre - NUNES, Antonio Alves - PEREIRA, Antônio - PERRONE, Rafael - SILVA, Carlos - SILVA, João da - TEIXEIRA, Alfredo - VALENTE, Felipe


Por isso o Corinthians vai acabar sendo considerado o time do povo, por isso a esquerda paulista será em maioria corinthiana.

O presidente escolhido por eles foi o alfaiate Miguel Bataglia que já no primeiro momento afirmou: "O Corinthians vai ser o time do povo e o povo é quem vai fazer o time".


Retirado do artigo de Luciano Pasqualini.

PALMEIRAS X CORINTHIANS

90 anos de rivalidade

Co-autoria: Luciano Pasqualini

No site italo-brasileiro Brava Gente.

Foto: Corinthians em 1914
A equipe:Fúlvio, Casemiro do Amaral e Casemiro Gonzáles; Pollice, Bianco e César; Aristides, Peres, Amilcar, Apparício e Neco.

domingo, 25 de maio de 2008

Ai Se Sesse
Se um dia nós se gosta-se
Se um dia nós se quere-se
Se nós dois se emparea-se
Se jutim nós dois vive-se
Se jutim nós dois mora-se
Se jutim nós dois drumi-se
Se jutim nós dois morre-se
Se pro céu nós assubi-se

Mas porém se acontece-se de São Pedro não abri-se
A porta do céu e fosse te dizer qualquer tolice
E se eu me arrimina-se
E tu com eu insinti-se
Prá que eu me arresouve-se
E a minha faca puxa-se
E o bucho do céu fura-se
Távez que nós dois fica-se
Távez que nós dois cai-se
E o céu furado arria-se
E as virgem todas fugir-se
Zé da Luz

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Só há uma diferença entre um louco e eu.
O louco pensa que é sadio. Eu sei que sou louco!

Salvador Dalí

quarta-feira, 7 de maio de 2008

...as cidades e os olhos...


Enchendo os olhos com as imagens encontradas

A cada movimento a visão é transformada

A sombra de suas bailarinas com adornos prateados

Em forma de uma medusa sob os lampadários.


A arquitetura que vem p'ra roubar nossa visão

Os signos em eterno estado de transformação.

A cidade se consome em sua própria construção

Só podemos transitar em estado de contemplação


Sua arquitetura desmonta a linearidade

A exuberância reconstrói a sua simplicidade

As miragens nos enganam enquanto andamos no deserto

Os imensos edifícios que nos afastam do que é perto


Ela está parada mas em eterno estado de mutação

Os transeuntes que figuram essa procissão

Explorando suas carnes em busca do pão

Sofreando seus desejos por medo da punição


Somente olhando para cima observamos o sol

Só olhando para a luta que encontramos um farol

A morte das suas casas já anunciam um final

Tudo observado por uma visão multilateral


Tentando compreende-la não me compreendo

Tentando controla-la não me contenho

Sua existência continua em suas particularidades

E os olhos sempre seguirão em busca dos olhares...


As cidades brincando com os olhos...

Os olhos brincando com as cidades...

O olhar transformando o cotidiano...

E a visão transformando a realidade...

segunda-feira, 28 de abril de 2008

O anjo mais velho




(Fernando Anitelli)

"O dia mente a cor da noite
E o diamante a cor dos olhos
Os olhos mentem dia e noite a dor da gente"

Enquanto houver você do outro lado
Aqui do outro eu consigo me orientar
A cena repete a cena se inverte
enchendo a minha alma d'aquilo que outrora eu deixei de acreditar

tua palavra, tua história
tua verdade fazendo escola
e tua ausência fazendo silêncio em todo lugar

metade de mim
agora é assim
de um lado a poesia o verbo a saudade
do outro a luta, a força e a coragem pra chegar no fim
e o fim é belo incerto... depende de como você vê
o novo, o credo, a fé que você deposita em você e só

Só enquanto eu respirar
Vou me lembrar de você




*Show de "O Teatro Mágico" na virada cultural foi muito foda.


Realmente absurdo.


Fotos: Daigo Oliva

domingo, 20 de abril de 2008

Rondó da Liberdade


É preciso não ter medo,

é preciso ter a coragem de dizer.


Há os que têm vocação para escravo,

mas há os escravos que se revoltam contra a escravidão.


Não ficar de joelhos,

que não é racional renunciar a ser livre.

Mesmo os escravos por vocação

devem ser obrigados a ser livres,

quando as algemas forem quebradas.


É preciso não ter medo,

é preciso ter a coragem de dizer.


O homem deve ser livre...

O amor é que não se detém ante nenhum obstáculo,

e pode mesmo existir quando não se é livre.

E no entanto ele é em si mesmo

a expressão mais elevada do que houver de mais livre

em todas as gamas do humano sentimento.


É preciso não ter medo,

é preciso ter a coragem de dizer.



Carlos Marighella
São Paulo, Presídio Especial, 1939.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

...as cidades e os simbolos...

Seguindo por três dias as paredes da muralha.
Que cercam as cidades que não querem ser tocadas.
E caminho. Tento pular muro.
Quando percebo a altura fico meio inseguro.
Mas do alto já dá pra observá-la.
Ver suas virtudes e em que posso melhorá-la.
Acrescentar, modificar
E ver na cidade que é provável transmutar.
Mas me esqueci nessa viagem sou só um observador.
Só vim pra relatar o encontrado e o que me encontrou.
Então sigo por suas pontes de concreto
E percebo que nela existem mundo paralelos
Várias cidades se entrecruzam se relacionam em um mesmo local.
Tudo é multiplicado em uma cidade multifuncional.
Seus símbolos, seus gestos, dizem coisas que variam.
A percepção do receptor é quem dita o caminho
Cada fachada de suas casas e edifícios.
É sempre variável e nunca é preciso.
Em meio a uma confusão de significados.
E vendo tudo aquilo, fico sempre impressionado.
Mas tenho que prosseguir, não vim pra ficar parado.
Tenho que andar atento a todos os lados.
E guardar em minha mente tudo que é encontrado.
Nas cidades e seus símbolos o silêncio é falado.
O antagonismo de suas imagens é modificado.
Mesmo calculando não encontra um resultado.
Preciso,
Os espelhos das cidades são seus rios poluidos.
O que acontece nela em seu rio é refletido.
Sua autodestruição sua voracidade
Suas ruínas aumentam em grande velocidade.
Mas mesmo suas ruínas são magnífica beleza.
Carregam sua história alegrias e tristezas
Escute-a, a cidade está falando.
Seus mais belos encantos estão se modificando.
A transformação é inerente a sua existência
Para entendê-la muita calma e sapiência.
Observação virtude dos sábios
Assim passeia pela cidade suavidade em seus lábios
O encanto do seu povo é algo incontestável.
Quando os vejo sinto em meu peito algo inexplicável.
A cidade os reflete a todo instante.
As coisas não param, são inconstantes.
Parece que ela está os paquerando a cada minuto.
A relação entre todos ainda sim é algo confuso
Minha cabeça está vazia, meus olhos estão cheios.
As imagens nela criada transformam os meios.
Eu perplexo, tento, mas parece impossível entende-la
A luz que ilumina e os afasta é a mesma

quinta-feira, 10 de abril de 2008

LIBERDADE

Não ficarei tão só no campo da arte,
e, ânimo firme, sobranceiro e forte,
tudo farei por ti para exaltar-te,
serenamente, alheio à própria sorte.

Para que eu possa um dia contemplar-te
dominadora, em férvido transporte,
direi que és bela e pura em toda parte,
por maior risco em que essa audácia importe.

Queira-te eu tanto, e de tal modo em suma,
que não exista força humana alguma
que esta paixão embriagadora dome.

E que eu por ti, se torturado for,
possa feliz, indiferente à dor,
morrer sorrindo a murmurar teu nome”

Carlos Marighella São Paulo, Presídio Especial, 1939.

quarta-feira, 9 de abril de 2008

"Todos nós, brasileiros, somos carne da carne daqueles pretos e índios supliciados. Como descendentes de escravos e de senhores de escravos seremos sempre marcados pelo exercício da brutalidade sobre aqueles homens, mulheres e crianças. Esta é a mais terrível de nossas heranças. Mas nossa crescente indignação contra esta herança maldita nos dará forças para, amanhã, conter os possessos e criar aqui, neste país, uma sociedade solidária. "

Darcy Ribeiro

quarta-feira, 2 de abril de 2008

ASSOMBROS


Às vezes, pequenos grandes terremotos
ocorrem do lado esquerdo do meu peito.

Fora, não se dão conta os desatentos.

Entre a aorta e a omoplata rolam
alquebrados sentimentos.

Entre as vértebras e as costelas
há vários esmagamentos.

Os mais íntimos
já me viram remexendo escombros.
Em mim há algo imóvel e soterrado
em permanente assombro.

Affonso Romano de Sant'Anna (Lado Esquerdo do Meu Peito)

segunda-feira, 17 de março de 2008

Certas Palavras

Certas palavras não podem ser ditas
em qualquer lugar e hora qualquer.
Estritamente reservadas
para companheiros de confiança,
devem ser sacralmente pronunciadas
em tom muito especial
lá onde a polícia dos adultos
não adivinha nem alcança.

Entretanto são palavras simples:
definem
partes do corpo, movimentos, atos
do viver que só os grandes se permitem
e a nós é defendido por sentença
dos séculos.
E tudo é proibido. Então, falamos.

Carlos Drummond de Andrade

segunda-feira, 10 de março de 2008


O Brasil cresceu visivelmente nos últimos 80 anos. Cresceu mal, porém. Cresceu como um boi mantido, desde bezerro, dentro de uma jaula de ferro. Nossa jaula são as estruturas sociais medíocres, inscritas nas leis, para compor um país da pobreza na província mais bela da terra. Sendo assim, no Brasil do futuro, a maioria da gente nascerá e viverá nas ruas, em fome canina e ignorância figadal, enquanto a minoria rica, com medo dos pobres, se recolherá em confortáveis campos de concentração, cercados de arame farpado e eletrificado.
Entretanto, é tão fácil nos livrarmos dessas teias, e tão necessário, que dói em nós... A nossa conivência culposa.

Darcy Ribeiro

Foto Sebastião Salgado

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Le voyeur

No úmido porão, terra batida,
lar de escorpiões,
procura-se a greta entre as tábuas
do soalho
por onde se surpreenda a flor
escênciado corpo das mulheres
na sombra de vestido refolhados
que cobrem até os pés
a escultura cifrada.

Entro rastejante
dobro o corpo em dois
à procura da greta reveladora
de não sei que mistério radioso
ou sombrio
só a homens ofertado
em sigilo de quarto e noite alta.

Encontro, mina de ouro?
Contenho respiração.
Dispara o coração
no fim de longa espera
ao rumor de saias lá em cima
ai de mim, que nunca se devas
sampor mais que o desejo aguce a vista
e o sangue implore uma visão
de céu e terra encavalados.

Nada
nada
nada
senão a sola negra dos sapatos
tapando a greta do soalho.

Saio rastejante
olhos tortos
pescoço dolorido.
A triste polução foi adiada.

Carlos Drummond de Andrade

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Trechos do manifesto da primeira Semana de Arte Moderna da Periferia:

Dos becos da periferia há de vir a voz que grita contra o silêncio que nos pune. A voz que galopa contra o passado pelo futuro de todos. Pela arte e pela cultura no subúrbio, pela universidade para a diversidade. Contra a arte patrocinada pelos que a corrompem. Contra a arte fabricada para destruir o senso crítico. A arte que liberta não pode vir da mão que escraviza. Sejamos, pois, a favor da poesia periférica que brota na porta do bar. A favor do teatro que não venha do ter ou não ter. A favor do cinema real que não iluda. Das artes plásticas que querem substituir os barracos de madeira. Da dança que desafoga. Da música que não embala os adormecidos. Da literatura das ruas despertando nas calçadas. Pela periferia unida, no centro de todas as coisas. Contra o racismo, a intolerância e as injustiças sociais de que a arte vigente não fala. Contra a surdez e a mudez artística. Pelo artista que não compactua com a mediocridade. Por um artista a serviço da comunidade, do país, um artista que por si só exercita a revolução. Contra a arte domingueira que a televisão defeca em nossa sala e nos hipnotiza no colo da poltrona. Contra a barbárie que é a falta de bibliotecas, cinemas, museus, teatros e espaços para o acesso ao que há de bom na produção cultural. Contra o capital que ignora o interior a favor do exterior. Contra um sistema que precisa de carrascos e vítimas. Contra os covardes e eruditos de aquário. Contra o artista serviçal escravo da vaidade. Contra os vampiros das verbas públicas para a arte privada. A arte que liberta não pode vir da mão que escraviza.
Enfim, por uma periferia que nos une pelo amor, pela dor e pela cor. É tudo nosso! Miami pra eles? Me ame pra nós.

Sérgio Vaz, o Poeta da periferia

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

"Arte pra mim não é produto de mercado. Podem me chamar de romântico. Arte pra mim é missão, vocação e festa."

Ariano Suassuna

domingo, 3 de fevereiro de 2008

Amores mal resolvidos

Olhe para um lugar onde tenha muita gente: uma praia num domingo de 40º, uma estação de metrô, a rua principal do centro da cidade.
Metade deste povaréu sofre de Dor de Cotovelo.
Alguns trazem dores recentes, outros trazem uma dor de estimação, mas o certo é que grande parte desses rostos anônimos tem um Amor Mal resolvido, uma paixão que não se evaporou completamente, mesmo que já estejam em outra relação.
Por que isso acontece?
Tenho uma teoria, ainda que eu seja tudo, menos teórico no assunto.
Acho que as pessoas não gastam seu amor.
Isso mesmo.
Os amores que ficam nos assombrando não foram amores consumidos até o fim. Você sabe, o amor acaba. É mentira dizer que Não. Uns acabam cedo, outros levam 10 ou 20 anos para terminar, talvez até mais.
Mas um dia acaba e se transforma em outra coisa: lembranças, amizade,parceira, parentesco, e essa transição não é dolorida se o amor for devorado até o fim. Dor de Cotovelo é quando o amor é interrompido antes que se esgote. O amor tem que ser vivenciado. Platonismo funciona em novela, mas na vida real demanda muita energia sem falar do tempo que ninguém tem para esperar. E tem que ser vivido em sua totalidade. É preciso passar por todas etapas: atração-paixão-amor-convivência-amizade-tédio-fim.
Como já foi dito, este trajeto do amor pode ser percorrido em algumas semanas ou durar muitos anos, mas é importante que transcorra de ponta a ponta, senão sobra lugar para fantasias, idealizações, enfim, tudo aquilo que nos empaca a vida e nos impede de estarmos abertos para novos amores.
Se o amor foi interrompido sem ter atingido o fundo do pote, ficamos imaginando as múltiplas possibilidades de continuidade, tudo o que a gente poderia ter dito e não disse, feito e não fez.
Gaste seu amor.
Usufrua-o até o fim.
Enfrente os bons e maus momentos, passe por tudo que tiver que passar, não se economize. Sinta todos os sabores que o amor tem, desde o adocicado do início até o amargo do fim, mas não saia da história na metade.
Amores precisam dar a volta ao redor de si mesmo, fechando o próprio ciclo. Isso é que libera a gente para Ser Feliz Novamente.
Arnaldo Jabor

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Os ombros suportam o mundo.

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossege
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

Carlos Drummond de Andrade

domingo, 13 de janeiro de 2008

Vendi a Alma


Vendi minha'alma ao Diabo
Posso falar mal dele e da alma também
se assim me convém
E da sombra tirei um retrato
Vou pregar no mundo e não mostrar a ninguém
se assim me convém
Depois de uma tempestade conceitual de força "cinco"
Os maniqueístas tem suas artérias da memória
seccionadas,
Suas células programadas automaticamente, perderam
suas funções
e agora proliferam ao infinito
Imortalidade.
Não é o que todos os homens desejam?
Uma falha nos agentes inibidores criam perspectivas de
longevidade infinita,
Subdesenvolvendo todas as funções dos genes criados
para lapidar
Sabe o que é um ser eterno?
É quando ando corpo pede as tranças da alma
Se um dia eu não der o recado,
pode chamar por outro se assim lhe convém,
pois pra mim tudo bem...


Lucio Maia - Maquinado
Pintura de Jean-Michel Basquiat - Sem Título

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Disneylândia

Filho de imigrantes russos casado na Argentina
Com uma pintora judia,
Casou-se pela segunda vez
Com uma princesa africana no México

Música hindú contrabandiada por ciganos poloneses faz sucesso
No interior da Bolívia zebras africanas
E cangurus australianos no zoológico de Londres.
Múmias egípcias e artefatos íncas no museu de Nova York

Lanternas japonesas e chicletes americanos
Nos bazares coreanos de São Paulo.
Imagens de um vulcão nas Filipinas
Passam na rede dc televisão em Moçambique

Armênios naturalizados no Chile
Procuram familiares na Etiópia,
Casas pré-fabricadas canadenses
Feitas com madeira colombiana
Multinacionais japonesas
Instalam empresas em Hong-Kong
E produzem com matéria prima brasileira
Para competir no mercado americano

Literatura grega adaptada
Para crianças chinesas da comunidade européia.
Relógios suiços falsificados no Paraguay
Vendidos por camelôs no bairro mexicano de Los Angeles.
Turista francesa fotografada semi-nua com o namorado árabe
Na baixada fluminense

Filmes italianos dublados em inglês
Com legendas em espanhol nos cinemas da Turquia
Pilhas americanas alimentam eletrodomésticos ingleses na Nova Guiné

Gasolina árabe alimenta automóveis americanos na África do Sul.
Pizza italiana alimenta italianos na Itália
Crianças iraquianas fugidas da guerra
Não obtém visto no consulado americano do Egito
Para entrarem na Disneylândia

Titãs

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

Vamos por nosso bloco na rua

Carnaval Revolução 2008 (O último!)

60 horas ininterruptas de:
palestras, debates, oficinas, vídeos, shows, festas, performances e faça-você-mesmo.Café da manhã, almoço, lanches e jantar vegano (sem nenhum ingrediente de origem animal).

Presenças confirmadas:
John Zerzan (EUA),
Jesus Sepúlveda (Chile),
Gato Negro (BH),
Erva Daninha, FARJ (RJ) e mais...


Dias 2, 3 e 4 de Fevereiro
Em São Paulo - SPR$ 6,00 (Por dia, exceto festas. Alimentação não inclusa.)
Sem drogas ou álcool no local e ao fumar seu cigarro use o bom senso.

Informações: (11) 3255.5274 Assessoria de imprensa: (31) 8722.4374 ou (31) 9778.1368www.carnavalrevolucao.org (breve no ar programação completa)

sábado, 5 de janeiro de 2008

Pensem

"Se a injustiça faz parte do atrito necessário à máquina do governo, deixemos que assim seja: talvez amacie com o passar do tempo, e certamente a máquina irá se desgastar. Se a injustiça tem uma mola, polia, cabo ou manivela exclusivamente para si, talvez possamos questionar se o remédio não será pior que o mal. Mas se ela for de natureza tal que exija que nos tornemos agentes de injustiça para com os outros, então proponho que violemos a lei. Deixemos que nossas vidas sejam um antiatrito capaz de deter a máquina. O que devemos fazer, de qualquer maneira, é verificar se não nos estamos prestando ao mal que condenamos.RIDENDO CASTIGAT MORES!"Guy Fawkes

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Gentileza Gera Gentileza


Apagaram tudo

Pintaram tudo de cinza

A palavra no muro

Ficou coberta de tinta


Apagaram tudo

Pintaram tudo de cinza

Só ficou no muro

Tristeza e tinta fresca


Nós que passamos apressados

Pelas ruas da cidade

Merecemos ler as letras

E as palavras de Gentileza


Por isso eu pergunto

À você no mundo

Se é mais inteligente

O livro ou a sabedoria


O mundo é uma escola

A vida é o circo

Amor palavra que liberta

Já dizia o Profeta


Mariza Monte