quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

Miséria silenciosa


Sou!

Um passageiro neste trem desgovernado.

Que segue sem trilhos indo para lugar algum.


Sou!

Mais um nome na lista dos desesperados.

Que vaga no mundo e no mundo sou mais um.

Não sou mais que um nome nesta arena deste teatro.

Que banha-se com o sangue dos que não podem se defender.

Sou mais uma estatística para os homens do estado.

Que se elegem pela mentira ou pela força buscam o poder.


E você!

Não vira me dar um abraço.

Nem vira dormir em meu barraco.

Nem sabe o feijão cozer.


E você!

Não se levanta antes do sol estar bem alto.

Nem vai dormir coberto por sacos.

E não sabe o que é frio.

Ou de medo tremer.


Não!

Não sou mais que um número.

Para ser usado pelos lúdicos.

Que se abancam de todo poder.

E sentados, em suas cadeiras de couro.

As ruas se tornaram os matadouros.

E disputa-se com os cães para comer.


Não!

Na verdade nem somos gente.

Que só lembrados sem sermos indiferentes.

Pelos que querem as mamas do poder.


E você!

Não vira me dar um abraço.

Nem vira dormir em meu barraco.

Nem sabe o feijão cozer.


E você!

Não se levanta antes do sol estar bem alto.

Nem vai dormir coberto por sacos.

E não sabe o que é frio.

Ou de medo tremer.


Campos!

Que se enchem de grãos e fome.

Pelos tantos Josés sem nome.

Que são escravizados por coronéis do sertão.


Cidades!

Que em labirintos de favelas.

O crime se organiza não pensando no bem estar dela.

Assim como as autoridades não nos querem ver.


País!

Que só vitrine em caráter internacional.

Esconde as sete chaves o seu veneno letal.

E a corrupção se faz reinar.


E eu!

Que passageiro neste trem imundo.

Sigo chamado de vagabundo.

Quando os seus sacos de lixos tenho de rasgar.


E você!

Não vira me dar um abraço.

Nem vira dormir em meu barraco.

Nem sabe o feijão cozer.


E você!

Não se levanta antes do sol estar bem alto.

Nem vai dormir coberto por sacos.

E não sabe o que é frio.

Ou de medo tremer.

Mansões que se estendem nas cidades.

Cercados por seus guardas covardes.

Que nos vêem como cães a chutar.

Assassinos, encobertos por suas sirenes.

Por suas fardas limpas de sangue quente.

Que acabaram de derramar.

Amantes com seus caros diamantes.

Presenteados pelo político importante.

Com o dinheiro da merenda escolar.


E você!

Não vira me dar um abraço.

Nem vira dormir em meu barraco.

Nem sabe o feijão cozer.


E você!

Não se levanta antes do sol estar bem alto.

Nem vai dormir coberto por sacos.

E não sabe o que é frio.

Ou de medo tremer.

E assim, constroem-se altos edifícios.

Ruas de pedras e paralelepípedos.

Tornaram-se pistas para seus carrões.

E a selva, o machado chegou nela.

O homem amplia a fazenda e espera.

O certificado autentico de suas ambições.

E assim, prossegue a vida se arrastando.

Eu neste trem em mudo gritando.

Assistindo a abortarem minhas gerações.


E você!

Não vira me dar um abraço.

Nem vira dormir em meu barraco.

Nem sabe o feijão cozer.


E você!

Não se levanta antes do sol estar bem alto.

Nem vai dormir coberto por sacos.

E não sabe o que é frio.

Ou de medo tremer.


*ROBERTO MARIANO*

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