quarta-feira, 15 de agosto de 2007

Rebelião

Com gemidos agoureiros,
Num pavoroso lamento,
Lá fora perpassa o vento
Chicoteando os pinheiros.
E a noite, caliginosa,
De uma tristeza suprema,
É como a boca monstruosa
Da monstruosa caverna.


Chove. O arvoredo farfalha
Soturno o trovão ribomba
Como longínqua metralha;
Depois o silêncio tomba.
Pávido e trêmulo, escuto,
Mergulho a vista lá fora
E vejo a terra de luto,
E oiço uma voz que apavora.

Como um vago murmúrio,
Mansa a princípio ela ecoa,
Depois de um grito bravio
Que pela noite reboa,
Que para a noite se eleva
Num pavoroso transporte,
Como soluço de treva,
Como um frêmito de morte.

Essa voz cheia de ameaças,
De imprecações e rugido,
É o clamor das populaças,
É a voz dos desprotegidos.
Medonha, relutante e rouca,
Vem d’esse mundo sombrio
Dos que tiritam de frio
E não tem pão para boca.

Vem das lôbregas choupanas
Onde em tarimbas sem nome
Há criaturas humanas
Agonizando com fome.
Vem da cloaca deletéria,
Em que a “Justiça” comprime
Esses que a mão da miséria
Pôs no caminho do crime.

Doa quartel – açougue enorme
Onde à espera da batalha,
Morta de fadiga, dorme
A carne para metralha.
Dos hospitais, dos hospícios,
Das tascas onde ressona
A grei de todos os vícios
Que a miséria proporciona.

Ah! Nesse grito funesto,
Nesse rugido, palpita
Um rancoroso protesto.
É o povo, a plebe maldita
Que, sombria, ameaçadora,
Nas vascas do sofrimento,
Mistura aos uivos do vento
A grande voz vingadora.

Tremei, vampiros nojentos!
Tremei, nos vossos dourados
Palacetes opulentos!
O sangue dos desgraçados
Sugai, bebei gota-a-gota.
Não tarda que chegue o instante
Em que a turba se levante,
Sedenta, faminta e rota.

E quando comece a luta,
Quando explodir a tormenta,
A sociedade corrupta,
Execrável e violenta,
Iníqua, vil, criminosa,
Há de cair aos pedaços,
Há de voar em estilhaços
Numa ruína espantosa.


Ricardo Gonçalves, jovem poeta anarquista que converteu Edgard Leuenroth ao credo libertário.

3 comentários:

Anônimo disse...

Voce tem uma otima aparencia...Só!

Lucas disse...

salve! Onde você leu q ele converteu o Leuenroth? Foi no livro "Poesia social na literatura brasileira" ?

E obrigado por compartilhar, estava procurando essa poesia e fui achar aqui. abraço!

Pensamentos Cabíveis disse...

brother, postei esse poema a muito tempo, não me lembro bem as fontes exatas, mas li algo sobre isso em uma dissertação de mestrado da PUC (não lembro a autora, mas era extremamente interessante, falava sobre iconografia anarqusita)e também em um dos livros de Edgar Rodrigues, são as duas que lembro que possivelmente encontraria algo.
abraço
paz