segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

ANO NOVO


"Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial.Industrializou a esperança fazendo-a funcionar no limite da exaustão.Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez com outro número e outra vontade de acreditar que daqui para adiante vai ser diferente�".-(Carlos Drumont de Andrade)-

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

Miséria silenciosa


Sou!

Um passageiro neste trem desgovernado.

Que segue sem trilhos indo para lugar algum.


Sou!

Mais um nome na lista dos desesperados.

Que vaga no mundo e no mundo sou mais um.

Não sou mais que um nome nesta arena deste teatro.

Que banha-se com o sangue dos que não podem se defender.

Sou mais uma estatística para os homens do estado.

Que se elegem pela mentira ou pela força buscam o poder.


E você!

Não vira me dar um abraço.

Nem vira dormir em meu barraco.

Nem sabe o feijão cozer.


E você!

Não se levanta antes do sol estar bem alto.

Nem vai dormir coberto por sacos.

E não sabe o que é frio.

Ou de medo tremer.


Não!

Não sou mais que um número.

Para ser usado pelos lúdicos.

Que se abancam de todo poder.

E sentados, em suas cadeiras de couro.

As ruas se tornaram os matadouros.

E disputa-se com os cães para comer.


Não!

Na verdade nem somos gente.

Que só lembrados sem sermos indiferentes.

Pelos que querem as mamas do poder.


E você!

Não vira me dar um abraço.

Nem vira dormir em meu barraco.

Nem sabe o feijão cozer.


E você!

Não se levanta antes do sol estar bem alto.

Nem vai dormir coberto por sacos.

E não sabe o que é frio.

Ou de medo tremer.


Campos!

Que se enchem de grãos e fome.

Pelos tantos Josés sem nome.

Que são escravizados por coronéis do sertão.


Cidades!

Que em labirintos de favelas.

O crime se organiza não pensando no bem estar dela.

Assim como as autoridades não nos querem ver.


País!

Que só vitrine em caráter internacional.

Esconde as sete chaves o seu veneno letal.

E a corrupção se faz reinar.


E eu!

Que passageiro neste trem imundo.

Sigo chamado de vagabundo.

Quando os seus sacos de lixos tenho de rasgar.


E você!

Não vira me dar um abraço.

Nem vira dormir em meu barraco.

Nem sabe o feijão cozer.


E você!

Não se levanta antes do sol estar bem alto.

Nem vai dormir coberto por sacos.

E não sabe o que é frio.

Ou de medo tremer.

Mansões que se estendem nas cidades.

Cercados por seus guardas covardes.

Que nos vêem como cães a chutar.

Assassinos, encobertos por suas sirenes.

Por suas fardas limpas de sangue quente.

Que acabaram de derramar.

Amantes com seus caros diamantes.

Presenteados pelo político importante.

Com o dinheiro da merenda escolar.


E você!

Não vira me dar um abraço.

Nem vira dormir em meu barraco.

Nem sabe o feijão cozer.


E você!

Não se levanta antes do sol estar bem alto.

Nem vai dormir coberto por sacos.

E não sabe o que é frio.

Ou de medo tremer.

E assim, constroem-se altos edifícios.

Ruas de pedras e paralelepípedos.

Tornaram-se pistas para seus carrões.

E a selva, o machado chegou nela.

O homem amplia a fazenda e espera.

O certificado autentico de suas ambições.

E assim, prossegue a vida se arrastando.

Eu neste trem em mudo gritando.

Assistindo a abortarem minhas gerações.


E você!

Não vira me dar um abraço.

Nem vira dormir em meu barraco.

Nem sabe o feijão cozer.


E você!

Não se levanta antes do sol estar bem alto.

Nem vai dormir coberto por sacos.

E não sabe o que é frio.

Ou de medo tremer.


*ROBERTO MARIANO*

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Chegando as eleições!!!


TUDO o que pode ser dito a respeito do sufrágio pode ser resumido em uma frase:
Votar significa abrir mão do próprio poder.
Eleger um senhor, ou muitos senhores, seja por longo ou curto prazo, significa entregar a uma outra pessoa a própria liberdade.
Chamado monarca absoluto, rei constitucional ou simplesmente primeiro ministro, o candidato que levamos ao trono, ao gabinete ou ao parlamento sempre será o nosso senhor. São pessoas que colocamos "acima" de todas as leis, já que são elas que as fazem, cabendo-lhes, nesta condição, a tarefa de verificar se estão sendo obedecidas.
Votar é uma idiotice.
É tão tolo quanto acreditar que os homens comuns como nós, sejam capazes, de uma hora para outra, num piscar de olhos, de adquirir todo o conhecimento e a compreensão a respeito de tudo. E é exatamente isso que acontece. As pessoas que elegemos são obrigadas a legislar a respeito de tudo o que se passa na face da terra: como uma caixa de fósforos deve ou não ser feita, ou mesmo se o país deve ou não guerrear; como melhorar a agricultura, ou qual deve ser a melhor maneira para matar alguns árabes ou negros. É muito provável que se acredite que a inteligência destas pessoas cresça na mesma proporção em que aumenta a variedade dos assuntos com os quais elas são obrigadas a tratar.
Porém, a história e a experiência mostram-nos o contrário.
O poder exerce uma influência enlouquecedora sobre quem o detém e os parlamentos só disseminam a infelicidade.
Nas assembléias acaba sempre prevalecendo a vontade daqueles que estão, moral e intelectualmente, abaixo da média.
Votar significa formar traidores, fomentar o pior tipo de deslealdade.
Certamente os eleitores acreditam na honestidade dos candidatos e isto perdura enquanto durar o fervor e a paixão pela disputa.
Todo dia tem seu amanhã. Da mesma forma que as condições se modificam, o homem também se modifica. Hoje seu candidato se curva à sua presença; amanhã ele o esnoba. Aquele que vivia pedindo votos, transforma-se em seu senhor.
Como pode um trabalhador, que você colocou na classe dirigente, ser o mesmo que era antes já que agora ele fala de igual para igual com os opressores? Repare na subserviência tão evidente em cada um deles depois que visitam um importante industrial, ou mesmo o Rei em sua ante-sala na corte!
A atmosfera do governo não é de harmonia, mas de corrupção. Se um de nós for enviado para um lugar tão sujo, não será surpreendente regressarmos em condições deploráveis.
Por isso, não abandone sua liberdade.
Não vote!
Em vez de incumbir os outros pela defesa de seus próprios interesses, decida-se. Em vez de tentar escolher mentores que guiem suas ações futuras, seja seu próprio condutor. E faça isso agora! Homens convictos não esperam muito por uma oportunidade.
Colocar nos ombros dos outros a responsabilidade pelas suas ações é covardia.
Não vote!



Elisee Reclus
Tradução de Mario Bresighello

domingo, 2 de dezembro de 2007

Ao Combate!!

¡ Al combate!
Es una cárcel de martirio el mundo
Do la infeliz mujer obrera habita
Soportando con dolor profundo
Las infamias i miserias de la vida!
Aquí reina el pérfido egoismo
La maldad, la miseria i el dolor,
Que oprimen con venal cinismo
Al pueblo siervo de la esplotación…
I por mas que sin cesar trabaje
La mujer nacida en pobre cuna,
Siempre llevará consigo el traje
Del inmundo harapo hasta la tumba.
¡Oh burguesía! Piensa en el futuro
de la presente sociedad humana;
raciocina con calma i de seguro
veras temblar tu criminal espada!
¿Existe acaso algún poder oculto
para que siempre esclava la mujer,
acepte el necio i miserable insulto
del potentado o místico burgués?
No! Porque el sol de la Cuestión Social
Ya ilumina el cerebro de los pueblos,
Destruye la ignorancia universal,
Y la mujer edúcase en los templos…
Pero en los templos del saber i la ciencia,
Donde impera el dios de la Virtud,
Donde vive la razón en la conciencia
Tan pura i libre como el cielo azul;
Allí donde la igualdad radiante
Se alza en el trono de bendito Amor
Cobijando como madre amante
Los nobles hijos de su corazón
¡obreras del mundo! Ya la luz
que irradie el pensamiento humano
empieza a destrozar el yugo i la cruz
que llevamos en los hombros tantos años
Hijos del trabajo !Salud y libertad
si en vuestros dignos corazones late
la voz anjelical de la Verdad!
Acudid presurosos al combate
A destrozar al Rei de la maldad.



Clara Rosa G. é uma poeta anarquista chilena e escreve esse poema em 1901 no periódico anarquista chileno EL ACRATA.

sábado, 24 de novembro de 2007

Tu Risa


TU RISA


Quitame el pan, si quieres,

quitame el aire, pero

no me quites tu risa


No me quites la rosa,

la lanza que desgranas,

el agua que de pronto

estalla en tu alegría,

la repentina ola

de plata que te nace.


Mi lucha es dura y vuelvo

con los ojos cansados

a veces de haber visto

la tierra que no cambia,

pero al entrar tu risa

sube al cielo buscandome

y abre para mi todas

las puertas de la vida.


Amor mío en la hora

más oscura desgrana

tu risa, y si de pronto

ves que mi sangre mancha

las piedras de la calle

ríe, porque tu risa

será para mis manos

como una espada fresca.


Junto al mar en otoño,

tu risa debe alzar

su cascada de espuma

y en primavera, amor,

quiero tu risa como

la flor que yo esperaba

la flor azul, la rosa,

de mi patria sonora.


Riete de la noche,

del día, de la luna,

riete de las calles

torcidas de la isla

riete de este torpe

muchacho que te quiere,

pero cuando yo abro

los ojos y los cierro

cuando mis pasos van

cuando vuelven mis pasos

niegame el pan, el aire,

la luz, la primavera,

pero tu risa nunca

porque me moriría


PABLO NERUDA.
Una homenaje a la mujer que roubou mi corazón. Llenaste mi alma. Y con simplicidad mi volveu la vida.

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

CAPÍTULO IX / A ÓPERA


DOM CASMURRO Machado de Assis

Já não tinha voz, mas teimava em dizer que a tinha. "O desuso é que me faz mal", acrescentava. Sempre que uma companhia nova chegava da Europa, ia ao empresário e expunha-lhe todas as injustiças da terra e do céu; o empresário cometia mais uma, e ele saía a bradar contra a iniqüidade. Trazia ainda os bigodes dos seus papéis. Quando andava, apesar de velho, parecia cortejar uma princesa de Babilônia. As vezes, cantarolava, sem abrir a boca, algum trecho ainda mais idoso que ele ou tanto - vozes assim abafadas são sempre possíveis. Vinha aqui jantar comigo algumas vezes. Uma noite, depois de muito Chianti, repetiu-me a definição do costume, e como eu lhe dissesse que a vida tanto podia ser uma ópera, como uma viagem de mar ou uma batalha, abanou a cabeça e replicou:

--A vida é uma ópera e uma grande ópera. O tenor e o barítono lutam pelo soprano, em presença do baixo e dos comprimirás, quando não são o soprano e o contralto que lutam pelo tenor, em presença do mesmo baixo e dos mesmos comprimirás. Há coros a numerosos, muitos bailados, e a orquestração é excelente...

--Mas, meu caro Marcolini...

--Quê...

E depois, de beber um gole de licor, pousou o cálix, e expôs-me a história da criação, com palavras que vou resumir.

Deus é o poeta. A música é de Satanás, jovem maestro de muito futuro, que aprendeu no conservatório do céu. Rival de Miguel, Raiael e Gabriel, não tolerava a precedência que eles tinham na distribuição dos prêmios. Pode ser também que a música em demasia doce e mística daqueles outros condiscípulos fosse aborrecível ao seu gênio essencialmente trágico. Tramou uma rebelião que foi descoberta a tempo, e ele expulso do conservatório. Tudo se teria passa do sem mais nada, se Deus não houvesse escrito um libreto de ópera do qual abrira mão, por entender que tal gênero de recreio era impróprio da sua eternidade. Satanás levou o manuscrito consigo para o inferno. Com o fim de mostrar que valia mais que os outros, e acaso para reconciliar-se com o céu,--compôs a partitura, e logo que a acabou foi levá-la ao Padre Eterno.

--Senhor, não desaprendi as lições recebidas, disse-lhe. Aqui tendes a partitura, escutai-a emendai-a, fazei-a executar, e se a achardes digna das alturas, admiti-me com ela a vossos pés...

--Não, retorquiu o Senhor, não quero ouvir nada.

--Mas, Senhor...

--Nada! nada!

Satanás suplicou ainda, sem melhor fortuna, até que Deus, cansado e cheio de misericórdia, consentiu em que a ópera fosse executada, mas fora do céu. Criou um teatro especial, este planeta, e inventou uma companhia inteira, com todas as partes, primárias e comprimárias, coros e bailarinos.

--Ouvi agora alguns ensaios!

--Não, não quero saber de ensaios. Basta-me haver composto o libreto; estou pronto a dividir contigo os direitos de autor.

Foi talvez um mal esta recusa; dela resultaram alguns desconcertos que a audiência prévia e a colaboração amiga teriam evitado com efeito, há lugares em que o verso vai para a direita e a música, para a esquerda. Não falta quem diga que nisso mesmo está a além da composição, fugindo à monotonia, e assim explicam o terceto do Aden, a ária de Abel, os coros da guilhotina e da escravidão. Não é raro que os mesmos lances se reproduzam, sem razão suficiente. Certos motivos cansam à força de repetição. Também há obscuridades; o maestro abusa das massas corais, encobrindo muita vez o sentido por um modo confuso. As partes orquestrais são aliás tratadas com grande perícia. Tal é a opinião dos imparciais.

Os amigos do maestro querem que dificilmente se possa acha obra tão bem acabada. Um ou outro admite certas rudezas e tais ou quais lacunas, mas com o andar da ópera é provável que estas sejam preenchidas ou explicadas, e aquelas desapareçam inteiramente, não se negando o maestro a emendar a obra onde achar que não responde de todo ao pensamento sublime do poeta. Já não dizem c mesmo os amigos deste. Juram que o libreto foi sacrificado, que a partitura corrompeu o sentido da letra, e, posto seja bonita em alguns lugares, e trabalhada com arte em outros, é absolutamente diversa e até contrária ao drama. O grotesco, por exemplo, não está no texto do poeta; é uma excrescência para imitar as Mulheres Patuscas de Windsor. Este ponto é contestado pelos satanistas com alguma aparência de razão. Dizem eles que, ao tempo em que o jovem Satanás compôs a grande ópera, nem essa farsa nem Shakespeare eram nascidos. Chegam a afirmar que o poeta inglês não teve outro gênio senão transcrever a letra da ópera, com tal arte e fidelidade, que parece ele próprio o autor da composição; mas, evidentemente, é um plagiário.

--Esta peça, concluiu o velho tenor, durará enquanto durar o teatro, não se podendo calcular em que tempo será ele demolido por utilidade astronômica. O êxito é crescente. Poeta e músico recebem pontualmente os seus direitos autorais, que não são os mesmos, porque a regra da divisão é aquilo da Escritura: "Muitos são os chamados, poucos ao escolhidos". Deus recebe eu ouro, Satanás em papel.

--Tem graça...

--Graça? bradou ele com fúria; mas aquietou-se logo, e replicou: Caro Santiago, eu não tenho graça, eu tenho horror à graça. Isto que digo é a verdade pura e última. Um dia. quando todos os livros forem queimados por inúteis, há de haver algum, pode ser que tenor, e talvez italiano, que ensine esta verdade aos homens. Tudo é música, meu amigo. No princípio era o dó, e do dó fez-se ré, etc. Este cálix (e enchia-o novamente), este cálix é um breve estribilho. Não se ouve? Também não se ouve o pau nem a pedra, mas tudo cabe na mesma ópera...

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

Resposta A Sangue e Fogo

Vidas levadas ao inferno,
peças que sobram na engrenagem.
A elite se isola da miséria
por ela mesma criada.

Muros encondem um terror eterno,
um apartheid social.
Casas queimadas sem explicação.
A revolta é abafada pela repressão.

Comunidades inteiras expulsas,
reclusas em lugares distantes.
Privadas da riqueza,
resultado de seu suor.
Seduzidas pelo progresso.
Mera ilusão.
Ignorando a realidade.
Alienação.
Do descontetamento cresce
a indiginação.
Disposição tomada
pelo sentimento de revolta.

RESPOSTA A SANGUE E FOGO.

Direito à dignidade.
Confrontar o opressor.
Conquistar o que nos pertence.
QUE OS PUNHOS SE FECHEM!
QUE O ÓDIO FERVA EM NOSSO SANGUE
E QUEIME ESSE CENÁRIO!
PREPARANDO O SOLO PARA A REVOLUÇÃO.

(essa é a letra da música Resposta a sangue e fogo da banda Point of no return, a letra já diz tudo, nem precisa de explicações ou comentários)

quarta-feira, 15 de agosto de 2007

Rebelião

Com gemidos agoureiros,
Num pavoroso lamento,
Lá fora perpassa o vento
Chicoteando os pinheiros.
E a noite, caliginosa,
De uma tristeza suprema,
É como a boca monstruosa
Da monstruosa caverna.


Chove. O arvoredo farfalha
Soturno o trovão ribomba
Como longínqua metralha;
Depois o silêncio tomba.
Pávido e trêmulo, escuto,
Mergulho a vista lá fora
E vejo a terra de luto,
E oiço uma voz que apavora.

Como um vago murmúrio,
Mansa a princípio ela ecoa,
Depois de um grito bravio
Que pela noite reboa,
Que para a noite se eleva
Num pavoroso transporte,
Como soluço de treva,
Como um frêmito de morte.

Essa voz cheia de ameaças,
De imprecações e rugido,
É o clamor das populaças,
É a voz dos desprotegidos.
Medonha, relutante e rouca,
Vem d’esse mundo sombrio
Dos que tiritam de frio
E não tem pão para boca.

Vem das lôbregas choupanas
Onde em tarimbas sem nome
Há criaturas humanas
Agonizando com fome.
Vem da cloaca deletéria,
Em que a “Justiça” comprime
Esses que a mão da miséria
Pôs no caminho do crime.

Doa quartel – açougue enorme
Onde à espera da batalha,
Morta de fadiga, dorme
A carne para metralha.
Dos hospitais, dos hospícios,
Das tascas onde ressona
A grei de todos os vícios
Que a miséria proporciona.

Ah! Nesse grito funesto,
Nesse rugido, palpita
Um rancoroso protesto.
É o povo, a plebe maldita
Que, sombria, ameaçadora,
Nas vascas do sofrimento,
Mistura aos uivos do vento
A grande voz vingadora.

Tremei, vampiros nojentos!
Tremei, nos vossos dourados
Palacetes opulentos!
O sangue dos desgraçados
Sugai, bebei gota-a-gota.
Não tarda que chegue o instante
Em que a turba se levante,
Sedenta, faminta e rota.

E quando comece a luta,
Quando explodir a tormenta,
A sociedade corrupta,
Execrável e violenta,
Iníqua, vil, criminosa,
Há de cair aos pedaços,
Há de voar em estilhaços
Numa ruína espantosa.


Ricardo Gonçalves, jovem poeta anarquista que converteu Edgard Leuenroth ao credo libertário.

quinta-feira, 3 de maio de 2007

Se os Tubarões Fossem Homens

Bertold Brecht
Se os tubarões fossem homens, eles fariam construir resistentes caixas do mar, para os peixes pequenos com todos os tipos de alimentos dentro, tanto vegetais, quanto animais.

Eles cuidariam para que as caixas tivessem água sempre renovada e adotariam todas as providências sanitárias, cabíveis se por exemplo um peixinho ferisse a barbatana, imediatamente ele faria uma atadura a fim que não morressem antes do tempo.

Para que os peixinhos não ficassem tristonhos, eles dariam cá e lá uma festa aquática, pois os peixes alegres tem gosto melhor que os tristonhos.

Naturalmente também haveria escolas nas grandes caixas, nessas aulas os peixinhos aprenderiam como nadar para a guela dos tubarões.

Eles aprenderiam, por exemplo a usar a geografia, a fim de encontrar os grandes tubarões, deitados preguiçosamente por aí. aula principal seria naturalmente a formação moral dos peixinhos.

Eles seriam ensinados de que o ato mais grandioso e mais belo é o sacrifício alegre de um peixinho, e que todos eles deveriam acreditar nos tubarões, sobretudo quando esses dizem que velam pelo belo futuro dos peixinhos.

Se encucaria nos peixinhos que esse futuro só estaria garantido se aprendessem a obediência.

Antes de tudo os peixinhos deveriam guardar-se antes de qualquer inclinação baixa, materialista, egoísta e marxista e denunciaria imediatamente aos tubarões se qualquer deles manifestasse essas inclinações.

Se os tubarões fossem homens, eles naturalmente fariam guerra entre sí a fim de conquistar caixas de peixes e peixinhos estrangeiros.

As guerras seriam conduzidas pelos seus próprios peixinhos. Eles ensinariam os peixinhos que entre eles os peixinhos de outros tubarões existem gigantescas diferenças, eles anunciariam que os peixinhos são reconhecidamente mudos e calam nas mais diferentes línguas, sendo assim impossível que entendam um ao outro.

Cada peixinho que na guerra matasse alguns peixinhos inimigos

Da outra língua silenciosos, seria condecorado com uma pequena ordem das algas e receberia o título de herói.

Se os tubarões fossem homens, haveria entre eles naturalmente também uma arte, havia belos quadros, nos quais os dentes dos tubarões seriam pintados em vistosas cores e suas guelas seriam representadas como inocentes parques de recreio, nos quais se poderia brincar magnificamente.

Os teatros do fundo do mar mostrariam como os valorosos peixinhos nadam entusiasmados para as guelas dos tubarões.

A música seria tão bela, tão bela que os peixinhos sob seus acordes, a orquestra na frente entrariam em massa para as guelas dos tubarões sonhadores e possuídos pelos mais agradáveis pensamentos .

Também haveria uma religião ali.

Se os tubarões fossem homens, ela ensinaria essa religião e só na barriga dos tubarões é que começaria verdadeiramente a vida.

Ademais, se os tubarões fossem homens, também acabaria a igualdade que hoje existe entre os peixinhos, alguns deles obteriam cargos e seriam postos acima dos outros.

Os que fossem um pouquinho maiores poderiam inclusive comer os menores, isso só seria agradável aos tubarões pois eles mesmos obteriam assim mais constantemente maiores bocados para devorar e os peixinhos maiores que deteriam os cargos valeriam pela ordem entre os peixinhos para que estes chegassem a ser, professores, oficiais, engenheiro da construção de caixas e assim por diante.

Curto e grosso, só então haveria civilização no mar, se os tubarões
fossem homens.

segunda-feira, 2 de abril de 2007

Rumo

É tempo, companheiro!
Caminhemos ...
Longe, a Terra chama por nós,
e ninguém resiste à voz
Da Terra ...

Nela,
O mesmo sol ardente nos queimou
a mesma lua triste nos acariciou,
e se tu és negro e eu sou branco,
a mesma Terra nos gerou!

Vamos, companheiro ...
É tempo!

Que o meu coração
se abra à mágoa das tuas mágoas
e ao prazer dos teus prazeres
Irmão
Que as minhas mãos brancas se estendam
para estreitar com amor
as tuas longas mãos negras ...
E o meu suor
se junte ao teu suor,
quando rasgarmos os trilhos
de um mundo melhor!

Vamos!
que outro oceano nos inflama.. .
Ouves?
É a Terra que nos chama ...
É tempo, companheiro!
Caminhemos ...

Alda Lara



ALDA LARA (Alda Ferreira Pires Barreto de Lara Albuquerque. Benguela, Angola, 9.6.1930 - Cambambe, Angola, 30.1.1962). Era casada com o escritor Orlando Albuquerque. Muito nova veio para Lisboa onde concluíu o 7º ano dos liceus. Frequentou as Faculdades de Medicina de Lisboa e Coimbra, licenciando-se por esta última. Em Lisboa esteve ligada a algumas das actividades da Casa dos Estudantes do Império. Declamadora, chamou a atenção para os poetas africanos. Depois da sua morte, a Câmara Municipal de Sá da Bandeira instituiu o Prémio Alda Lara para poesia. Orlando Albuquerque propôs-se editar-lhe postumamente toda a obra e nesse caminho reuniu e publicou já um volume de poesias e um caderno de contos. Colaborou em alguns jornais ou revistas, incluindo a Mensagem (CEI). Figura em: Antologia de poesias angolanas,Nova Lisboa, 1958; amostra de poesia in Estudos Ultramarinos, nº 3, Lisboa1959; Antologia da terra portuguesa - Angola, Lisboa, s/d (196?)1; Poetas angolanos, Lisboa, 1962; Poetas e contistas africanos, S.Paulo, 1963; Mákua 2 - antologia poética, Sá da Bandeira, 1963; Mákua 3, idem; Antologia poética angolana, Sá da Bandeira, 1963; Contos portugueses do ultramar - Angola, 2º vol, Porto, 1969. Livros póstumos: Poemas, Sá da Bandeira, 1966; Tempo de chuva (c), Lobito, 1973

quarta-feira, 28 de março de 2007

POA da mio cuore


Como algumas pessoas nos deixam felizes com gestos tão simples?
As vezes só de saber que elas ainda nos acompanham, nosso coração é tomado por uma alegria única.
As vezes me sinto tomado por uma alegria que nunca viví, lembranças que nunca tive, saudades de lugares que nunca passei.

O mapa
Olho o mapa da cidade
Como quem examinasse
A anatomia de um corpo...


(E nem que fosse o meu corpo!)


Sinto uma dor infinita
Das ruas de Porto Alegre
Onde jamais passarei...


Ha tanta esquina esquisita,
Tanta nuança de paredes,
Ha tanta moca bonita
Nas ruas que não andei
(E ha uma rua encantada
Que nem em sonhos sonhei...)


Quando eu for, um dia desses,
Poeira ou folha levada
No vento da madrugada,
Serei um pouco do nada
Invisível, delicioso


Que faz com que o teu ar
Pareça mais um olhar,
Suave mistério amoroso,
Cidade de meu andar
(Deste já tão longo andar!)


E talvez de meu repouso...


Mário Quintana

domingo, 18 de março de 2007

Carta aos Mortos



Amigos, nada mudou
em essência.
Os salários mal dão para os gastos,
as guerras não terminaram
e há vírus novos e terríveis,
embora o avanço da medicina.
Volta e meia um vizinho
tomba morto por questão de amor.
Há filmes interessantes, é verdade,
e como sempre, mulheres portentosas
nos seduzem com suas bocas e pernas,
mas em matéria de amor
não inventamos nenhuma posição nova.
Alguns cosmonautas ficam no espaço
seis meses ou mais, testando a engrenagem
e a solidão.
Em cada olimpíada há récordes previstos
e nos países, avanços e recuos sociais.
Mas nenhum pássaro mudou seu canto
com a modernidade.

Reencenamos as mesmas tragédias gregas,
relemos o Quixote, e a primavera
chega pontualmente cada ano.

Alguns hábitos, rios e florestas
se perderam.
Ninguém mais coloca cadeiras na calçada
ou toma a fresca da tarde,
mas temos máquinas velocíssimas
que nos dispensam de pensar.

Sobre o desaparecimento dos dinossauros
e a formação das galáxias
não avançamos nada.
Roupas vão e voltam com as modas.
Governos fortes caem, outros se levantam,
países se dividem
e as formigas e abelhas continuam
fiéis ao seu trabalho.

Nada mudou em essência.

Cantamos parabéns nas festas,
discutimos futebol na esquina
morremos em estúpidos desastres
e volta e meia
um de nós olha o céu quando estrelado
com o mesmo pasmo das cavernas.
E cada geração , insolente,
continua a achar
que vive no ápice da história.


Affonso Romano de Sant'Anna

sábado, 10 de março de 2007

Homem Comum



Sou um homem comum
de carne e de memória
de osso e esquecimento.
e a vida sopra dentro de mim
pânica
feito a chama de um maçarico
e pode
subitamente
cessar.

Sou como você
feito de coisas lembradas
e esquecidas
rostos e
mãos, o quarda-sol vermelho ao meio-dia
em Pastos-Bons
defuntas alegrias flores passarinhos
facho de tarde luminosa
nomes que já nem sei
bandejas bandeiras bananeiras
tudo
misturado
essa lenha perfumada
que se acende
e me faz caminhar
Sou um homem comum
brasileiro, maior, casado, reservista,
e não vejo na vida, amigo,
nenhum sentido, senão
lutarmos juntos por um mundo melhor.
Poeta fui de rápido destino.
Mas a poesia é rara e não comove
nem move o pau-de-arara.
Quero, por isso, falar com você,
de homem para homem,
apoiar-me em você
oferecer-lhe o meu braço
que o tempo é pouco
e o latifúndio está aí, matando.

Que o tempo é pouco
e aí estão o Chase Bank,
a IT & T, a Bond and Share,
a Wilson, a Hanna, a Anderson Clayton,
e sabe-se lá quantos outros
braços do polvo a nos sugar a vida
e a bolsa
Homem comum, igual
a você,
cruzo a Avenida sob a pressão do imperialismo.
A sombra do latifúndio
mancha a paisagem
turva as águas do mar
e a infância nos volta
à boca, amarga,
suja de lama e de fome.

Mas somos muitos milhões de homens
comuns
e podemos formar uma muralha
com nossos corpos de sonho e margaridas.

(Brasília, 1963)

quinta-feira, 8 de março de 2007

Hoje o maior terrorista estará aqui em nosso estado, saiba como agir na manifestações


Curso de Ação Direta
Leis, direitos e segurança em ação direta

Veja o que é possível fazer para garantir sua maior segurança durante manifestações ou outras modalidades de ação direta:

1. antes da ação;
2. leis e direitos;
3. situações de risco de prisão;
4. sendo preso;
5. na delegacia / solidariedade carcerária
Primeiros socorros em ação direta

Se você decidiu participar de uma manifestação e optou pela realização de ação direta deve considerar a possibilidade de que alguém possa ser preso, inclusive você. É muito importante preparar-se individualmente e coletivamente para essa situação. Veja algumas sugestões que poderão auxilia-lo a evitar ou resolver problemas desse tipo:

1. O quê fazer antes da Ação

A primeira coisa que você deve saber é se existe uma Comissão de Segurança ou Legal dando suporte à ação da qual você irá participar. Se você já faz parte da organização da ação certifique-se de que seja formada uma Comissão para cumprir essas funções.

Essa Comissão pode organizar e distribuir panfletos contendo: orientações gerais acerca da segurança dos manifestantes; uma compilação das principais leis que garantem a legalidade da manifestação e estabelecem os limites da ação policial; como contatar a Comissão e telefones úteis em caso de emergência (Corregedoria da Polícia e outros órgãos públicos). Pode também formar uma equipe de advogados e acioná-los no momento em que for necessário.

Outra boa forma de prevenir e denunciar abusos da Polícia é criar uma equipe de Observadores Legais, responsável por identificar a ocorrência de abusos e comunicar à Comissão imediatamente. Diferente da Comissão, que se articula por fora da manifestação, os Observadores participam efetivamente da ação direta, portando algum tipo de identificação (p. ex. crachás) e presenciam tudo “ao vivo”, podendo, prontamente interferir no momento de uma prisão, explicitando os direitos dos manifestantes diretamente para o policial.

O registro do ato através de fotos e filmagens pode ser muito importante para fornecer provas contra ações abusivas por parte de policiais. Essas imagens também têm valor documental e podem integrar a divulgação posterior da ação. A Comissão deve garantir que haja um número razoável de pessoas fazendo tais registros, além de pensar em estratégias para que a polícia não apreenda o material.

Os grupos de afinidade podem participar das decisões e práticas da Comissão de Segurança ou podem apenas tomar conhecimento de tais decisões. Porém, há muitas coisas que você pode fazer independentemente da Comissão em seu grupo de afinidade.

A primeira delas é conhecer todos os membros do seu grupo e saber seus nomes completos. A lógica é que cada um cuide de todos e que todos cuidem de cada um. Todos os membros devem estar aptos a dar as informações necessárias de cada um para a Comissão. A solidariedade, coesão e confiança existentes em um grupo de afinidade podem ser sua força e sua segurança.

É muito útil também que cada grupo tenha pelo menos um colaborador que não esteja participando da ação direta (um(a) amigo(a), namorado(a), parente ou vizinho). Existem pessoas que apóiam a causa mas não se dispõem a sair às ruas por diversos motivos. Essa é uma forma de envolver mais gente e garantir o sucesso da ação como um todo. Providencie que esse “membro oculto” tenha todas as informações sobre os membros do grupo e possa ser uma ponte entre a Comissão e os grupos. Essa pessoa também pode ajudar gravando a cobertura televisiva da manifestação, ajudando a sustentar desculpas para os chefes ou alimentando seu animal de estimação em caso de prisão.

Uma sugestão importante é identificar pessoas que possuam algum tipo de vulnerabilidade em seu grupo. Pessoas com passagens pela polícia, por exemplo, correm maior risco de sofrer conseqüências mais drásticas em caso de prisão. Pessoas com doenças crônicas ou psicológicas (bronquite, asma, problemas cardíacos, fobias, etc) devem ter uma atenção especial durante a manifestação e após sua prisão.

Outras condutas podem ser adotadas no decorrer da ação por todos aqueles que estão participando dela. Preparar cartazes, faixas, ou outros materiais nos quais estejam escritas as leis que garantem seu direito de manifestação pode ser um eficiente meio de informar a polícia de que você conhece os seus direitos e de inibir quaisquer abusos. Lembre-se de se informar sobre a existência de uma Comissão Legal, de descobrir como contatá-la, de possuir um panfleto com os telefones úteis e de possuir as informações sobre seus amigos(as). Todos que tiverem possibilidade de levar câmeras fotográficas e filmadoras devem tentar documentar a ação, pelos mesmos motivos acima expostos.

É muito importante não levar em hipótese alguma nenhum tipo de droga (maconha e álcool inclusos) e nenhum tipo de arma (soco inglês e canivetes inclusos também). A questão é simples: se você for preso portanto armas e/ou drogas você, certamente, será fichado por porte ilegal de armas e entorpecentes e não por causa da ação em si, o que pioraria muito sua situação. Além disso tal atitude pode prejudicar a credibilidade da manifestação, colocar em risco e dificultar a liberação os demais detidos.

Logo que chegar no local da ação tente memorizar o rosto e o nome de alguns policiais (se for preciso anote). Lembre-se que durante uma ação mais violenta da polícia os oficiais costumam ocultar seus nomes.

Há muitas outras coisas que podem ser feitas durante as ações. Antes de passarmos a elas seguem as tão faladas leis que garantem seu direito de manifestar-se:

2. Leis e direitos

Direito de manifestação, locomoção e expressão do pensamento:

Constituição Federal - Artigo 5°: Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no país a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:

IV - é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato;

VI - é inviolável a liberdade de expressão e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e suas liturgias;

VIII - ninguém será privado de direitos por motivo de crença religiosa ou de convicção filosófica ou política, salvo se as invocar para eximir-se de obrigação legal a todos imposta e recursar-se a cumprir prestação alternativa, fixada em lei;

IX - é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença;

XVI - todos podem reunir-se pacificamente, sem armas, em locais abertos ao público, independentemente de autorização, desde que não frustrem outra reunião anteriormente convocada para o mesmo local, sendo apenas exigido prévio aviso à autoridade competente;

Limites da ação policial:

Constituição Federal - Artigo 5º:

II - ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei;

III - ninguém será submetido a tortura nem a tratamento desumano ou degradante;

XXXIX - não há crime sem lei anterior que o defina, nem pena sem prévia cominação legal;

XLIX - é assegurado aos presos o respeito à integridade física e moral;

LIV - ninguém será privado da liberdade ou de seus bens sem o devido processo legal;

LXI - ninguém será preso senão em flagrante delito ou por ordem escrita e fundamentada de autoridade judiciária competente, salvo nos casos de transgressão militar ou crime propriamente militar, definidos em lei;

LXII - a prisão de qualquer pessoa e o local onde se encontre serão comunicados imediatamente ao juiz competente e à família do preso ou à pessoa por ele indicada;

LXIV - o preso tem direito à identificação dos responsáveis por sua prisão ou por seu interrogatório policial;

LXV - a prisão ilegal será imediatamente relaxada pela autoridade judiciária;

LXVI - ninguém será levado à prisão ou nela mantido, quando a lei admitir liberdade provisória, com ou sem fiança;

LXVIII - conceder-se-á habeas-corpus sempre que alguém sofrer ou se achar ameaçado de sofrer violência ou coação em sua liberdade de locomoção, por ilegalidade ou abuso de poder;

Lei 4.898/65 - Abuso de autoridade: é crime de abuso de autoridade o atentado à liberdade de locomoção (artigo 3º, "a"); ao direito de reunião (artigo 3º, "h"); à incolumidade física do indivíduo (artigo 3º, "i").

Código Penal - Artigo 322: Praticar violência, no exercício de função ou a pretexto de exercê-la: Pena - detenção, de 6 (seis) meses a 3 (três) anos, além da pena correspondente à violência.

Decreto Estadual Nº 13.657/43 - Transgressões disciplinares dos policiais militares: usar de violência desnecessária ao efetuar uma prisão (artigo 13, inciso LIV), maltratar preso sob sua guarda (artigo 13, inciso LV).

Ouvidoria das Polícias Civil e Militar de SP

Tel.: 0800 171770

3. Situações de Risco de Prisão

Algumas ações envolvem maior risco de prisão do que outras. Por exemplo: o caráter violento / não-violento da ação orienta em muito a ação da polícia. Você deve saber que bloqueios de ruas, invasão e depredação à propriedade serão reprimidos com muito mais violência do que uma panfletagem ou uma demonstração de caráter cultural e informativa. Escolher previamente um tipo de ação é importante para orientar o comportamento dos manifestantes e tomar as devidas providências para enfrentar a reação da polícia (tratadas no item Antes da Ação). Se, por exemplo, o coletivo optar por uma manifestação não violenta estará esperando uma determinada reação policial. Neste caso se alguns indivíduos se portarem de forma violenta poderiam acabar provocando uma reação contrária às expectativas e preparações do coletivo, colocando em risco a segurança da manifestação. Por isso, procure participar das decisões prévias a respeito da dinâmica que vai assumir a manifestação da qual você irá participar, ou, se isso não for possível, procure se informar sobre seu caráter (violenta , não violenta) . Mas, de qualquer maneira, você deve ter sempre em mente que existe a possibilidade de você ser preso, assim como muitos de seus companheiros.

O mais importante é manter-se calmo diante desta situação. Dificilmente algo de muito grave acontecerá com você ou com aqueles de quem você gosta. Existem muitas pessoas que já foram presas e que hoje estão bem e mais ativas do que nunca. Uma das mais poderosas armas da polícia é o medo que a prisão e a violência contra os detidos causa na maioria das pessoas. Não há motivos para temer. Tranqüilize-se e tente tranqüilizar os outros.

Saiba que você não está sozinho. Lembre-se que existem milhares de pessoas ao seu redor lutando pelos mesmos motivos que você. Existem milhões de outras pessoas no mundo todo que saem às ruas com os mesmos objetivos que você. Você vai se sentir forte e convicto, e isso não será à toa.

Se for preso pode ter certeza que muitas pessoas irão se mobilizar para te ajudar: seus amigos, parentes e companheiros vão à delegacia prestar solidariedade e aguardar até que você saia são e salvo de lá; os outros presos estarão do seu lado, conversando, ajudando e, se possível, descontraindo o ambiente e amenizando a tensão da situação; a Comissão Legal estará se articulando para soltá-lo o mais rápido possível e providenciando toda e qualquer ação que for necessária; a equipe de advogados estará pronta para defender e soltar qualquer manifestante que tenha sido detido. Não há motivo para se desesperar. Você será solto e continuará ao nosso lado nas próximas ações.

4. Sendo preso

Mesmo com todas os cuidados e precações devidamente tomados você pode se deparar com a situação de estar sendo preso ou de presenciar a prisão de alguém.

Em muitos casos a polícia aborda o manifestante no interior da ação e tenta arrastá-lo para a viatura, às vezes valendo-se de violência. Os manifestantes que estão ao seu redor podem tentar segura-lo ou protegê-lo. Se, mesmo assim a polícia conseguir deter o manifestante, o melhor a fazer é circundar o policial com um grande número de pessoas e gritar, por exemplo, “Solta! Solta!”. Isso pode também servir de aviso para os Observadores Legais e advogados, denunciando que alguém está sendo preso, além de intimidar os policiais. Tentar resgatar uma pessoa que já está imobilizada pela polícia pode significar a prisão de quem estiver tentando fazer isso. É muito importante comunicar à Comissão Legal e ao maior número de pessoas possíveis (principalmente as do grupo de afinidade dos presos) o nome completo dos manifestantes presos, se possível, o nome do policial que o prendeu e para qual DP eles foram levados.

Agora, levando em conta que o detido seja você e que as técnicas de seus companheiros tenham falhado, existem várias maneiras de lidar com a situação. A primeira tática é, sem dúvida, manter os olhos e os ouvidos bem abertos. No momento em que um policial lhe segurar, muito provavelmente sua reação será a de tentar se libertar, debatendo-se ou mesmo tentando correr. Supondo que você não obtenha sucesso e o policial tenha conseguido lhe imobilizar o que resta a fazer é dificultar que ele leve-o para a viatura. Para isso, deve-se relaxar todo o corpo e se soltar o máximo, fazendo com que seu peso seja bem maior do que se estivesse rígido e tenso. Isso pode ganhar algum tempo e fazer com que alguém vá te ajudar. Se o policial lhe algemar, não force ou se debata, pois as algemas são apertadas e podem machucar seus pulsos. Procure manter a calma e, mesmo numa situação tensa, mantenha-se tranqüilo e lúcido e colabore com os outros detidos.

No momento da prisão existem várias formas de se (com) portar diante da autoridade policial. Uma técnica comum nos EUA é não se identificar, manter-se calado e só responder (laconicamente) se questionado diretamente. Outra opção é dialogar com o policial, mostrando que você não é um “marginal”, que não cometeu nenhum crime. Dizer que você é um trabalhador / estudante pode ser uma boa forma de intimidar o policial, assim como demonstrar conhecimento das leis e direitos que lhe protegem. É aconselhável tratar o policial cordialmente, tentando evitar levantar a voz. Se você tem educação, essa é a melhor hora de praticá-la.

5. Na delegacia e Solidariedade Carcerária

O destino certo de todos detidos será a Delegacia de Polícia mais próxima da ação. Chegando lá, de início, provavelmente vocês estarão sozinhos e é nesse momento que a calma é mais necessária. Procure não discutir com os policiais usando um tom agressivo nem os xingando, pois, lembre-se, ele está armado e com você sob custódia. Dialogue com os guardas de maneira sensata e reafirme que você conhece os seus direitos e que ele não pode bater em você gratuitamente. Muito provavelmente eles tentarão intimida-lo através de ameaças. Especularão sobre a ação, fazendo perguntas, aparentemente, desinteressadas e amigáveis como: “Por que do protesto? De onde vocês são e o que fazem?”. O melhor nessa situação é dar respostas evasivas e não se denunciar, nem acusar os outros. Não tente “conscientizar” o policial, pois, muito provavelmente, será em vão. Declarar-se anarquista, comunista, etc, nessa hora pode ser contra-produtivo para sua situação e dos demais presos, assim como para o movimento do qual faz parte. Mas não forneça, de maneira alguma, informações sigilosas sobre a ação ou a organização que possa comprometer ou incriminar algum companheiro.

Talvez você seja o primeiro a ser preso, mas certamente não será o único. Tente se lembrar que em breve você estará com outros companheiros e que a Comissão Legal já estará agindo em prol de sua libertação. Se os advogados e a Comissão já estiverem na delegacia tudo será mais fácil e talvez você não passe por nada disso. Ceda todas as informações que os advogados solicitarem e siga suas orientações. Se você tiver alguma necessidade especial não exite em comunicar aos advogados. Eles poderão providenciar o que for necessário, como remédios, por exemplo.

É importante saber que dificilmente pessoas detidas por participarem de uma manifestação serão processadas ou passarão a noite na cadeia. Sua permanência na delegacia deve ser de algumas horas.

Uma boa maneira de suportar os momentos na prisão é conversar com os demais companheiros enclausurados. Tente conhecê-los e tente fazer com que todos saibam sobre a Comissão e algumas condutas diante da polícia. Apesar da tensão da situação é aconselhável que os presos tentem, na medida do possível, tomar decisões conjuntas, afim de que todos recebam o mesmo tratamento, e traçar métodos de comportamentos uniformes e regras de convivência no espaço da cela ou sala em que estiverem. O apoio do companheiro que se encontra na mesma situação que você é de grande valia nesses momentos.

Primeiros socorros em ação direta Comissão médica, 15 de abril de 2001

Algumas coisas que você precisa saber antes de uma ação.

Introdução
Esperamos que com este texto você tenha condições de se tratar ou tratar outros ativistas durante uma ação direta. Queremos ajudá-lo a se manter na ação o mais saudável e forte possível. Para isso, você precisa ter um conhecimento básico sobre primeiros socorros, acessórios úteis, sobre a roupa que você deverá usar, como manter a calma etc. Neste texto, procuramos colocar situações que podem ocorrer durante uma ação direta e como proceder perante tais situações.

É sempre bom lembrar que a melhor ajuda é aquela vinda de um profissional. Por isso, é sempre bom recorrer a um hospital ou à equipe de ajuda médica(caso exista alguma durante a ação). E o mais importante ao fazer o primeiro socorro é saber o que não deve ser feito. Caso você fique em dúvida sobre qualquer procedimento, mantenha a calma e procure por ajuda.

Os métodos utilizados pela polícia não são armas para causar dor e, sim, distração. O medo do spray de pimenta e do gás lacrimogêneo é uma divisão intencionada para nos controlar. Medo gera incerteza e duvidas. Existem várias informações aqui. É interessante que cada grupo de afinidade tenha uma pessoa com conhecimento destas informações e que possa ter acesso a elas.

Lembre-se que eles estão com mais medo de nós do que nós estamos deles. Eles entendem perfeitamente que nós temos o poder de mudar a rota do sistema, e que nós já mostramos que podemos encarar os nossos medos.

VOCÊ PRECISA SABER:

- PRECAUÇÃO: para necessidades essenciais, cuidados e suprimentos. Saiba o que esperar. Saiba como conseguir assistência. Planeje como reencontrar os seus amigos, caso se separem.

- ATITUDE: você é poderoso. Você pode facilmente resistir a maioria das coisas que a policia joga em você, e você é um ativista por justiça. Lembre-se, dor é apenas temporária e nós somos extremamente fortes.

- A PRIMEIRA ARMA DA POLICIA É O MEDO: uma vez que você controla isto, o spray de pimenta, e outras táticas da polícia são facilmente manejáveis.

- BOM SENSO: mantenha a sua perspicácia, avalie o que esta sendo destruído e o que precisa ser feito.

- FIQUE CALMO E CONCENTRADO: quando as coisas ficarem mais intensas, reaja ao perigo ou aos sinais de perigo antes – não depois. Fique atento por sinais de problemas físicos e mentais em você mesmo e nos outros. Acalme os outros que estiverem demostrando comportamento de pânico.

- FIQUE ATENTO A RUMORES: eles normalmente são falsos, e alimentam o medo. Lide com a verdade que você esta vendo.

- DOCUMENTE: a atuação da polícia, brutalidade e injustiças.

- RAIVA: muita raiva é bastante comum ao contato com spray de pimenta, e pode ser valiosa se você estiver preparado em focalizar o uso disto. Talvez você possa utilizar a sua raiva para motivar a sua recuperação e levá-lo de volta a ação de novo. Talvez isso te dê energia para ir a algum lugar mais seguro.

INFORMAÇÃO PARA AQUELES COM CONDIÇÕES MÉDICAS
Se você tem alguma condição médica que pode gerar sérios problemas se seus medicamentos forem interrompidos (como distúrbios psicológicos, diabetes, hipertensão etc.), você deve estar preparado pois poderá ficar sem medicação adequada enquanto estiver na cadeia. Uma receita de um médico pode ajudar. Três cópias da receita serão necessárias: uma para a equipe de ajuda legal; outra para a equipe médica (essas serão mantidas confidencialmente); e uma para você.

Deverá conter a seguinte informação: seu nome, diagnóstico, que você deverá ter acesso a todas as horas a sua medicação e mante-la consigo, desta maneira ela será apropriadamente administrada, uma lista de toda medicação, e que nenhuma substituição será aceita.

Já que o seu nome deve estar no documento, talvez você queira esconde-lo. Talvez você não necessite dele e então você poderá come-lo e praticar táticas de solidariedade. Nós acreditamos que revelando o seu nome e cooperando com o carcereiro para garantir a sua saúde é mais benefício para todos do que ter que lidar com alguma situação grave de saúde. Melhor entregar o nome do que a sua saúde.

Por favor tenha certeza de que o seu grupo de afinidade e a equipe de ajuda legal saibam de suas necessidades, daí eles vão poder ajudá-lo e orientá-lo.

Carregar medicamentos essenciais com suas receitas, com seu nome nelas e o tipo de medicamento, dosagem etc. poderá ajudá-lo a ter acesso a eles na cadeia.

O QUE VOCÊ DEVE SABER SOBRE O SPRAY DE PIMENTA:

- Quem deveria evitar o spray de pimenta: aqueles com asma, problemas respiratórios ou infecciosos, mulheres grávidas, mulheres que pretendem engravidar, qualquer pessoa doente ou com um sistema imune baixo, infecção nos olhos, que usa lentes de contato, e crianças.

- Preocupações que devem ser relacionadas ao spray de pimenta:

- Já que o spray de pimenta deve ser jogado de uma distância curta, a policia poderá tentar: fisicamente remover seu óculos de proteção/proteção para respirar.

- Reação a exposição aos químicos será beneficiada se houver alguma irritação na pele, como acne ou ECZEMA severa.

- As lentes de contato prendem os gazes irritantes e os componentes químicos, podendo aumentar os danos e as irritações causados por eles. Consiga óculos de grau agora e avise aos outros para não usar lentes de contatos.

- Asmáticos deverão trazer a suas bombinhas.

- A primeira e mais importante coisa que deve ser lembrada é relaxar! Se você estiver mentalmente preparado, tem suplementos necessários e conhecimento, não irá precisar de nossa assistência médica. Medo e confusão são as armas mais potentes do Estado. Confidência, determinação, preparação e conhecimento de nossa força é a sua melhor arma.

PRIMEIROS SOCORROS ANTES DA AÇÃO:

Pratique os treinamentos de primeiros socorros uns com outros antes da ação: você ganhará experiência antes de você precisar tratar outras pessoas durante situações difíceis .

não: use brincos, piercings, colares, gravatas etc.

vista-se de acordo com a temperatura: quanto mais você cobrir o seu corpo mais você estará protegido. Casacos de chuva ou tecidos à prova d’água, lavados com sabão neutro, não irão absorver os químicos (ao contrário do cotton ou algodão). Cobrir pulsos, tornozelos e pescoço. Cobrir também os cabelos com algo que seja à prova d’água, sacola plástica, toca de banho, capacete etc. Tênis ou botas confortáveis, que sirvam para correr. Calça e blusa extras, guardados na mochila, para você trocar as roupas contaminadas.

Bandanas enxarcadas em vinagre *substitui máscara de gás aliviando a garganta e o nariz. Mantenha guardada numa sacola plástica com zíper.

Lanches energéticos: podendo ser em líquido ou barras energéticas (lembre-se que você vai ficar o dia todo na rua).

Óculos de Mergulho: para proteger contra o spray de pimenta e o gás lacrimogêneo.

luvas: nunca entre em contato direto com sangue ou qualquer outro tipo de secreção(lembre-se da AIDS), elas também irão ajudar a protege-lo contra os químicos do spray e gás.

Não use lentes de contato!!!

Elas irão prender os químicos nos seus olhos causando danos sérios à eles.

O que você NÃO deve passar na pele:

Vaselina, detergente, hidratantes, maquilagem, protetor solar que contém óleo, qualquer coisa ácida irá causar reações fortes. Não use vaselina ou óleo de mamona como proteção!!!!

PRIMEIROS SOCORROS DURANTE A AÇÃO:

Fique calmo e concentrado.

Quando o seu corpo aquece (por correr ou pânico por exemplo), a irritação por spray de pimenta poderá aumentar. A maior parte da razão é porque os seus poros irão abrir permitindo a maior absorção dos químicos.

Fuja para um local seguro com ar puro, onde pessoas que não fora expostas poderão ajuda-lo, ou pelo menos garantir a sua segurança enquanto você se cuida.

Rosto em direção ao vento, olhos abertos, levante os braços e caminhe permitindo que o ar puro descontamine. Respire profundo e devagar o ar puro.

Não toque seus olhos ou rosto, porque você poderá se recontaminar.

Assopre o nariz e cuspa, ajudará a eliminar os químicos.

Se sua pele estiver molhada de spray de pimenta, limpe com roupa que não foi molhada pelo spray. Se você espalhar o óleo químico pela pele, aumentará a dor.

Antes de você tratar alguém, peça-lhe permissão primeiro! Daí explique para ele(a) o que você fará, antes de faze-lo.

terça-feira, 6 de março de 2007

O momento em que os anjos caem.


Num barraco de madeira sentem a dor do abandono.

A dor da surra.

A dor do álcool, que transforma em monstro seu progenitor.

Carregam em suas cicatrizes as ofensas e furto de sua dignidade, o medo.

As lágrimas escorrem sem testemunhas, almas inocente se perdem diante do mal.

Todas as ilusões e os pesadelos são reais.

Uma angustia, a dor da fome alimenta sua queda.

Tendo certeza da desgraça caminham com mais firmeza em direção a morte.

Caídos nas ruas os anjos se calam.

Seu choro não é escutado pelos ouvidos omissos.

Essas vítimas do capital sofrem sem poder de luta.

Sem força para uma resistência.

Calados tentam alimentar seus vícios gentilmente incentivados pelos adultos.

Buscam alimentar suas ilusões, perseguem o sorriso num saco com cola.

Buscam diminuir ali o frio das ruas, do vento que corta seus rostos pequenos nas madrugadas, da fome que os devora.

Tentam fugir do medo, medo do mundo que eles não pediram pra vir, e do qual sempre tentam deixar.

No momento em que os anjos caem, lagrimas escorrem dos céus.

O opressor se alimenta, das suas dores, de seus sonhos perdidos, de suas cicatrizes.

No momento em que os anjos caem, eles nos mostram o quanto ainda somos perversos.

Pois carregam em seu corpo as marcas da vingança, pois muitas vezes são oprimidos pelos oprimidos, como seus progenitores e, nas ruas o opressor mostra sua verdadeira face.

São inocentes, sem consciência de bem ou mal, mas já sabem que a face do bem nunca se mostrará a eles.

Somente a feição perversa e maligna do mundo seus olhinhos pequenos conseguem enxergar.

E assustados, apavorados diante do poderoso inimigo, diante de grandioso sofrimento, eles agem como anjos caídos, devolvem de forma muito fraca, uma resposta a tudo isso.

No momento em que os anjos caem, toda a humanidade desce com eles.

sexta-feira, 2 de março de 2007

Quando os ossos não mais resistem.



As rugas congeladas nas ruas das cidades
Nas filas esperando por um pouco de esperança
Seus ossos corroídos por anos de servidão
Agora se tornam lixos e um peso social

Suas súplicas por justiça são ignoradas
Perversidade faz parte do jogo do poder
Lágrimas enfeitam as prateleiras dos senhores
Que sentem prazer em destruir seus sonhos

O cheiro putrefato do abandono é um perfume nas narinas dos detentores de capital.

A solidão e o desespero que essas pessoas se encontram animam olhos vorazes por dor.

A crença espalhada de que eles não mais servirão, faz com que até os mesmo se sintam inúteis.

Pessoas sofrem diante de uma nação silenciosa
Controlados pelo sistema não reclamam
Consideram essa fase como parte do processo
E se preparam pra sofrer calado quando chegar sua vez

De cabeça baixa seguem diante do opressor
Que coordena suas vidas medíocres até o fim.
Quando não será mais necessária
Aí seremos todos largados
Sem capacidade viver muito tempo
Além do que planejaram
Pois os recursos dados, não são uma ajuda
Mas sim uma forma de manter-nos fracos sem forças para lutar

E garantir que a nossa morte ainda esteja próxima!!

O furto da dignidade é o furto de uma vida!!!!

Essa é uma letra que eu fiz pra minha banda, inspirada na forma que os idosos são tratados em nosso país, e a forma que a sociedade encara tudo isso.

*Photo by Sebastião Salgado

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2007

Minha (Cartola)


Minha

Minha
Quem disse que ela foi minha
Se fosse seria a rainha
Que sempre vinha
Aos sonhos meus

Minha
Ela não foi um só instante
como mentiam as cartomantes
como eram falsas as bolas de cristal

Minha
Repete agora esta cigana
Lembrando fatos envelhecidos
que já não ferem mais os meus ouvido



*Por que somente Cartola pra simplificar com tamanha maestria os acontecimentos comum da existência humana.

sábado, 24 de fevereiro de 2007

A Ópera

Já não tinha voz, mas teimava em dizer que a tinha. "O desuso é que me faz mal", acrescentava. Sempre que uma companhia nova chegava da Europa, ia ao empresário e expunha-lhe todas as injustiças da terra e do céu; o empresário cometia mais uma, e ele saía a bradar contra a iniqüidade. Trazia ainda os bigodes dos seus papéis. Quando andava, apesar de velho, parecia cortejar uma princesa de Babilônia.

Às vezes, cantarolava, sem abrir a boca, algum trecho ainda mais idoso que ele ou tanto - vozes assim abafadas são sempre possíveis. Vinha aqui jantar comigo algumas vezes. Uma noite, depois de muito Chianti, repetiu-me a definição do costume, e como eu lhe dissesse que a vida tanto podia ser uma ópera, como uma viagem de mar ou uma batalha, abanou a cabeça e replicou:.

- A vida é uma ópera e uma grande ópera. O tenor e o barítono lutam pelo soprano, em presença do baixo e dos comprimirás, quando não são o soprano e o contralto que lutam pelo tenor, em presença do mesmo baixo e dos mesmos comprimirás. Há coros a numerosos, muitos bailados, e a orquestração é excelente...

- Mas, meu caro Marcolini...

- Quê...

E depois, de beber um gole de licor, pousou o cálix, e expôs-me a história da criação, com palavras que vou resumir. Deus é o poeta. A música é de Satanás, jovem maestro de muito futuro, que aprendeu no conservatório do céu. Rival de Miguel, Rafael e Gabriel, não tolerava a precedência que eles tinham na distribuição dos prêmios. Pode ser também que a música em demasia doce e mística daqueles outros condiscípulos fosse aborrecível ao seu gênio essencialmente trágico. Tramou uma rebelião que foi descoberta a tempo, e ele expulso do conservatório.

Tudo se teria passa do sem mais nada, se Deus não houvesse escrito um libreto de ópera do qual abrira mão, por entender que tal gênero de recreio era impróprio da sua eternidade. Satanás levou o manuscrito consigo para o inferno. Com o fim de mostrar que valia mais que os outros, e acaso para reconciliar-se com o céu,- compôs a partitura, e logo que a acabou foi levá-la ao Padre Eterno.

- Senhor, não desaprendi as lições recebidas, disse-lhe. Aqui tendes a partitura, escutai-a emendai-a, fazei-a executar, e se a achardes digna das alturas, admiti-me com ela a vossos pés...

- Não, retorquiu o Senhor, não quero ouvir nada.

- Mas, Senhor...

- Nada! nada!

Satanás suplicou ainda, sem melhor fortuna, até que Deus, cansado e cheio de misericórdia, consentiu em que a ópera fosse executada, mas fora do céu. Criou um teatro especial, este planeta, e inventou uma companhia inteira, com todas as partes, primárias e comprimárias, coros e bailarinos.

- Ouvi agora alguns ensaios!

- Não, não quero saber de ensaios. Basta-me haver composto o libreto; estou pronto a dividir contigo os direitos de autor.

Foi talvez um mal esta recusa; dela resultaram alguns desconcertos que a audiência prévia e a colaboração amiga teriam evitado com efeito, há lugares em que o verso vai para a direita e a música, para a esquerda. Não falta quem diga que nisso mesmo está a além da composição, fugindo à.monotonia, e assim explicam o terceto do Éden, a ária de Abel, os coros da guilhotina e da escravidão. Não é raro que os mesmos lances se reproduzam, sem razão suficiente. Certos motivos cansam à força de repetição. Também há obscuridades; o maestro abusa das massas corais, encobrindo muita vez o sentido por um modo confuso. As partes orquestrais são aliás tratadas com grande perícia.

Tal é a opinião dos imparciais. Os amigos do maestro querem que dificilmente se possa acha obra tão bem acabada. Um ou outro admite certas rudezas e tais ou quais lacunas, mas com o andar da ópera é provável que estas sejam preenchidas ou explicadas, e aquelas desapareçam inteiramente, não se negando o maestro a emendar a obra onde achar que não responde de todo ao pensamento sublime do poeta. Já não dizem o mesmo os amigos deste.

Juram que o libreto foi sacrificado, que a partitura corrompeu o sentido da letra, e, posto seja bonita em alguns lugares, e trabalhada com arte em outros, é absolutamente diversa e até contrária ao drama. O grotesco, por exemplo, não está no texto do poeta; é uma excrescência para imitar as Mulheres Patuscas de Windsor.

Este ponto é contestado pelos satanistas com alguma aparência de razão. Dizem eles que, ao tempo em que o jovem Satanás compôs a grande ópera, nem essa farsa nem Shakespeare eram nascidos. Chegam a afirmar que o poeta inglês não teve outro gênio senão transcrever a letra da ópera, com tal arte e fidelidade, que parece ele próprio o autor da composição; mas, evidentemente, é um plagiário.

- Esta peça, concluiu o velho tenor, durará enquanto durar o teatro, não se podendo calcular em que tempo será ele demolido por utilidade astronômica. O êxito é crescente. Poeta e músico recebem pontualmente os seus direitos autorais, que não são os mesmos, porque a regra da divisão é aquilo da Escritura: "Muitos são os chamados, poucos os escolhidos". Deus recebe eu ouro, Satanás em papel.

- Tem graça...

- Graça? bradou ele com fúria; mas aquietou-se logo, e replicou: Caro Santiago, eu não tenho graça, eu tenho horror à graça. Isto que digo é a verdade pura e última. Um dia quando todos os livros forem queimados por inúteis, há de haver algum, pode ser que tenor, e talvez italiano, que ensine esta verdade aos homens. Tudo é música, meu amigo. No princípio era o dó, e do dó fez-se ré, etc. Este cálix (e enchia-o novamente), este cálix é um breve estribilho. Não se ouve? Também não se ouve o pau nem a pedra, mas tudo cabe na mesma ópera....

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007

CATANDO OS CACOS DO CAOS


CATANDO OS CACOS DO CAOS

Catar os cacos do caos
como quem cata no deserto
o cacto
............ - como se fosse flor.

Catar os restos e ossos
da utopia
............ como de porta em porta
o lixeiro apanha
detritos da festa fria
e pobre no crepúsculo
se aquece na fogueira erguida
com os destroços do dia.

Catar a verdade contida
em cada concha de mão,
como o mendigo cata as pulgas
no pêlo
............ - do dia cão.

Recortar o sentido
como o alfaiate-artista,
costurá-lo pelo avesso
com a inconsútil emenda
à vista.

Como o arqueólogo
reunir os fragmentos,
como se ao vento
se pudessem pedir as flores
despetaladas no tempo.

Catar os cacos de Dionisio
e Baco, no mosaico antigo
e no copo seco erguido
beber o vinho
ou sangue vertido.

Catar os cacos de Orfeu partido
pela paixão das bacantes
e com Prometeu refazer
o fígado
............ - como era antes.

Catar palavras cortantes
no rio do escuro instante
e descobrir nessas pedras
o brilho do diamante.

É um quebra-cabeça?
............ Então
de cabeça quebrada vamos
sobre a parede do nada
deixar gravada a emoção

......Cacos de mim
......Cacos do não
......Cacos do sim
......Cacos do antes
......Cacos do fim

Não é dentro
............ nem fora
embora seja dentro e fora
..... no nunca e a toda hora
que violento
.....o sentido nos deflora.

Catar os cacos
do presente e outrora
e enfrentar a noite
com o vitral da aurora

Affonso Romano de Sant'Anna

Vai passar pela avenida um samba popular.

Com os pés prontos pra sambar na avenida, e comemorar nossa própria desgraça!!!

Carnaval chegou!!!
E com ele retorna a nossa vidas a idéia de fantasia, a idéia da boa mentira, do dia que tudo pode ser verdade.
Então vamos entrar no clima e vamos começar a fingir também, todos que estão diante desse computador, fechem os olhos, e comecem a criar suas fantasias, pensem que o Brasil é um país justo para todos os seus cidadãos, que aqui não existe desigualdade social, racial, sexual, que aqui todos tem uma ótima educação, que a miséria foi extinta, que todos vivem igual, que todos os brasileiros tem uma vida tão boa quanto os personagens das novelas globais, e todas as multinacionais foram tomadas e hoje são comandadas pela sociedade, pensem que temos ótimos hospitais onde todos são muito bem atendidos, que nossas escolas tem uma educação onde formamos cidadãos conscientes de seu poder, que o país tem como uma das prioridades o meio ambiente, pensem que nossos idosos não são mais desrespeitados em filas pra ganhar sua esmola mensal, que o crime deixou de existir pois não há mais necessidade de roubar nesse nosso pais igualitário, pensem que as crianças que morriam de fome no sertão nordestino hoje são tão fortes quanto um touro, pensem que os políticos morreram todos de “roubeula”.
Agora abram seus olhos e saibam que vocês pensam como a maioria das pessoas no país que hoje tem seu circo e amanhã terá seu pão. E amanhã ninguém mais lembrará de corrupção no congresso, duplicação do salário dos deputados, PCC,CV,ADA,TC, PT, PSDB, PMDB, PFL, etc.
Amanhã todos acordarão com uma puta ressaca e com a alma leve, sentindo no peito a alegria de quem comemorou o fato de viver num país justo, num pais onde ninguém sente a dor da fome, o frio das ruas ou a vergonha da diferença.
Hoje é só oba!! oba!! pois temos motivos infinitos pra comemorar.


Usem camisinha... pois nenhuma criança merece ver a cagada que estamos fazendo com nosso mundo.